| em 25 abril 2010

Crise de comportamento no Pentecostalismo


Crise é um estado de incertezas, de confusão, de ruptura, um momento perigoso ou decisivo. Pode-se falar que o Movimento Pentecostal passa por uma crise? Ou a crise é apenas de comportamento dos agentes humanos contemporâneos?

A redução de Pentecostes a um superficial emocionalismo; a inclinação a substituir a Palavra de Deus por shows e teatros em cima dos púlpitos; a fácil imitação de seus aspectos litúrgicos por cultuadores de imagens (ídolos), autodenominados “carismáticos”; a tendência a tornar ecumênicas as experiências “pentecostais, como”, como se fosse possível delas participarem sem arrependimento e mudança de vida – esses e outros comportamentos demonstram que estamos em meio a uma crise de integridade pentecostal, a um abandono de características que marcaram o genuíno Pentecostes nos dias apostólicos e reflorescer do mover pentecostal-missiológico, precipuamente no século 20. Não é uma crise do Movimento Pentecostal – que sempre foi produzido pelo Espírito Santo – porém do comportamento dos agentes humanos do meio pentecostal.

Como se sabe, a santificação, a oração e o estudo da Palavra de Deus foram os balizadores daquele reavivamento. Sem consagração, dedicação à Palavra e à oração, não haveria o mover do Espírito no início do século passado.

Bartleman², jornalista que participou do avivamento pentecostal em Azuza, escreveu, em 1905, que os fundamentos doutrinários principais eram:

(1) Justificação pela fé;
(2) Santificação como obra concreta da graça;
(3) O batismo com o Espírito Santo, evidenciado pelo falar em outras línguas;
(4) A cura divina “como na expiação”;
(5) Arrebatamento pessoal pré-milenialista dos santos na Segunda Vinda de Cristo;
Toda igreja que alega ser pentecostal deve possuir ao menos estes cinco princípios práticos de fé, além do Credo Apostólico.

Atualmente, o Movimento Petencostal tem sido identificado apenas pelo “falar em outras línguas”. Sem dúvida, glossolalia é uma de suas indispensáveis características, porém o Pentecostes não se resume a isso. Biblicamente, ela é fruto da santificação, da perseverança, na oração e na comunhão com o Senhor e Sua Igreja, sem dispensar a meditação da Palavra de Deus.

Infelizmente, é possível enumerar algumas crises no comportamento “pentecostal” contemporâneo, tais como:


1. Crise da Palavra

Tem se abatido sobre as igrejas petencostais a tentação de substituir a doutrina bíblica pelos ensinamentos do momento: uma visão voltada para a terra, para as riquezas (Mt 6.21, 24). Mamóm tem dividido os púlpitos de muitas congregações, outrora fiéis aos ensinos do arrependimento, santificação e batismo com Espírito Santo. Assim como na crise do tempo rei Josias, a Palavra tem se perdido no templo (2Rs 22.8-13). Isso não é Pentecostes.

A ênfase petencostal da igreja Primitiva era o Céu; ela vivia e servia com o coração posto nas coisas celestiais (2Co 4.16-18). No movimento de Azusa, também o era, como se pode perceber na pregação de Seymour, em janeiro de 1908: “Chegou o tempo em que temos de nos separar deste velho mundo. Tudo aqui deve estar relegado ao segundo plano em relação a Jesus. Amado, o seu tesouro está no céu e você está aqui na terra para ganhar almas até chegar o tempo da vinda do Senhor”.³

Em outubro de 1906, Seymour clamava: “Qual o sentido desses pregadores assalariados, que não pregam a menos que recebam alta remuneração? Nos tempos bíblicos, os sacerdotes não tinham deles mesmos. Eles tinham de se manter com os dízimos e as ofertas. Os ministros de hoje afastaram-se dos marcos antigos, por isso percorrem o país buscando dinheiro. Voltem! Não há tempo a perder... Deus não precisa de grandes teólogos que não podem dar nada mais que aparas teológicas ao povo... Jesus, oro pedindo pastores que alimentem as suas ovelhas com o pão da vida. Preserva-as e guarda-as”. Não se está a defender que os ministros de Deus não recebam o seu sustento (1Tm 5.18), mas que sejam fiéis em repassar a doutrina bíblica ao povo, não por salário, porém por compromisso com a saúde espiritual da igreja local (2Co 11.8). Foi contra o mercantilismo da fé que o Espírito Santo levantou o Movimento Pentecostal contemporâneo. Por isso, ele não pode ser confundido com a mercadologia da fé.

A diminuição da ênfase à piedade em troca de mensagens que, em vez de levar ao arrependimento, servem mais de “auto-ajuda”, está descaracterizando a essência pentecostal. O povo se confunde com falsas doutrinas quando falta o ensino bíblico nos púlpitos (Os 4.6). Já dizia Seymour: “As falsas doutrinas matam a alma. Se sairmos da Palavra de Deus para crermos numa mentira, perdemos o sangue e a vida de nossa alma”.

Muitas igrejas pentecostais estão perdendo vigor por se distanciarem da Palavra de Deus. Os templos se enchem para shows, porém não para o quebratamento pela Palavra. A igreja Primitiva do Pentecostes preservava na doutrina dos apóstolos, além de outras virtudes (At 2.42).


2. Crise de Santidade

A Santificação é a principal característica do crente como um filho de Deus. Não há como participar do Pentecostes sem passer pela porta do arrependimento e caminhar pela senda da Santificação. O Movimento Pentecostal, em suas origens apostólicas, destacava a Santificação como característica principal da Igreja em meio à sociedade pagã (Fp 2.12, 15, 16; 1Co 6.10, 11). Devoção sem santidade ao Senhor termina em profanação (Lv 10.1-11). O mundo precisa ver o Movimento Pentecostal algo diferente de tudo o que não é fruto do Espírito Santo. Santidade de caráter, na praxis doutrinária e administrar o sagrado. Sem santidade, os frutos da carne se manifestam.

Seymour pregava: “Este povo viveu uma vida santa, separada do mundo, da carne e do diabo, e está conduzindo outras almas a uma vida de pureza e santidade. Há, na face de seus obreiros, um brilho do Espírito Santo”.

O Movimento Pentecostal atrai e resgata o mundo pela santidade, e não pelo número de pessoas que testemunham ter passado da miséria para a riqueza em nome da prosperidade material. Não que esta seja pecado, mas porque não tem a profundidade que requer a piedade (1Tm 6.10-14, 17).


3. Crise de Espiritualidade

Ser espiritual é andar no Espírito e não cumprir as concupscências da carne (Gl 5.16, 18, 22, 23). O genuine Movimento Pentecostal, desde os dias apostólicos, tem como maxima o “encheivos do Espírito” (Ef 5.18, 19), e isso não como os adoradores de imagens que usurpam para si esse texto sem abandonar a idolatria, porém como os apóstolos, através de cultos nos quais o Espírito Santo tinha a oportunidade de redargüir a Igreja através de salmos, cânticos espirituais e a Palavra. Onde estão os cânticos espirituais, que quase não se ouvem mais? Cessaram as interpretações? Onde estão as verdadeiras profecias, que são manifestadas pelo Espírito Santo para aquilo que lhe é útil? Hoje tudo o que se diz é “profético”. Onde estão os discernimentos de Espírito, para diferenciar a verdade do espírito do erro? Em muitos lugares, toda essa riqueza espiritual foi trocada pelo estrelismo, pelos shows, pelos aplausos (que não exercitam a glorificação verbal Pentecostal a Deus).

Além dos dons, a espiritualidade do crente deve manifestar o fruto do Espírito. Ama-se de todo o coração a Deus, sua Palavra e ao próximo? Ainda há gozo em servir a Jesus em retribuição à salvação? Exercitamos a moderação? Adoração, subordinação mútua, amor sacrificial, repeito, obediência, honra, e humildade são características de um petencostalismo spiritual. Quando estas virtudes diminuem ou deixam de existir na igreja e no crente, entra-se em crise.

Por isso recomenda-se orar a Deus, como diz o hino 155 da Harpa Cristã: “Com o fogo vem nos inflamer (…) E de toda mancha nos limpar (…) Aquece os frios, ó Senhor, faze os que dormem despertar; nós te suplicamos com fervor, Teu poder, Teu poder, Teu poder”.

Pr. Ailton José Alves, graduado em Teologia e líder da Convenção da AD no Estado de Pernambuco (Conadepe).

Fonte: Jornal Mensageiro da Paz – Setembro 2009.

Notas bibliográficas

1 - FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Novo Aurélio Século XX: o dicionário da lingual portuguesa. 3ª.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

2 - BARTLEMAN, Frank. Azusa Street. Buenos Aires: Peniel, 1997.

3 - SEYMOUR, Willian. O Avivamento da Rua Azusa: devocional. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. P. 143.



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