| em 05 maio 2010

Lições espirituais da tentação de Jesus no deserto

“Entendendo a tentação para que sigamos a Jesus e não a Satanás”


Na vida, temos muitas perguntas a fazer. Por que tantas desgraças? Furacões, terremotos, fome, guerras, assassinatos, pedófilos etc? Por que tantas pessoas invejosas, fofoqueiras, maldizentes?

A forma que Deus gestou a salvação da humanidade foi a mais bela, fantástica e altruísta que só o Divino poderia criar. O primeiro “ato oficial” de Jesus (entendendo o que seu ministério começou após o batismo) foi ir para o deserto enfrentar o Diabo, momento em que Ele teoricamente poderia ter resolvido todas as questões humanas. O próprio Satanás tentou Jesus para que Ele mudasse as regras, para que pudesse atingir o seu alvo de uma forma mais fácil, pegando um atalho. Nessa tentação, o caráter de Jesus estava em jogo, a história humana estava na balança.

A idéia da primeira tentação, transformar pedras em pães, coloca em evidência a tentação do Éden, embora de forma inversa: “Você pode ser verdadeiramente humano?” Creio que Satanás não estava apenas fazendo cena. Assim como o fez quando tentou Adão e Eva, estava tentando Jesus com golpes mortais.

Jesus, após ter jejuado 40 dias, chega ao encontro debilitado fisicamente, “tinha fome”. No Éden, a tentação colocou dúvida: “Será que Deus disse realmente isso?”. Já no deserto, era “Será que você é realmente filho de Deus?”. A tentação era fazer Jesus usar o seu poder para saciar a fome, comendo sem se sujeitar às regras fixas da agricultura. Ou seja: “Os outros passam fome, você não!” Outra tentação era para enfrentar riscos sem o perigo: “Pule dessa altura, você não é filho de Deus?”. Ou seja: “Enfrente riscos sem o perigo costumeiro das pessoas”. E mais: “Darei tudo a você, desfrute da fama sem a perspectiva da rejeição dolorosa”. Em suma: “Use a coroa em vez de uma cruz”.

Qual era a visão que as pessoas tinham do Messias? Um Messias que pudesse transformar pedra em pão? Um Messias que aparecesse no pináculo do Templo? Um Messias Rei que governasse os reinos da Terra? Satanás estava oferecendo a Jesus que Ele fosse o Messias que todos desejavam.

Desejamos tudo, menos o Messias sofredor de Isaías 53. Satanás tocou no ponto central da questão. Por toda a Sua vida, Jesus se deparou com essas tentações. Até mesmo Pedro sugeriu que Jesus não deveria enfrentar a cruz. Ou seja: “Não tome o caminho mais difícil”. Pregado na cruz, Jesus mais uma vez escuta a tentação de Satanás: “Se és filho de Deus, desça da cruz, salve a você mesmo e nós mesmos”. Mas, não houve livramento, nem milagre, nem caminho sem dor.

Se Jesus tivesse seguido os “conselhos” de Satanás, Ele poderia (pelo menos aos olhos humanos) realizar a Sua missão de uma forma mais rápida e mais fácil. Ele poderia conquistar as multidões criando alimento necessário, assumindo o controle do mundo e o tempo todo se protegendo do perigo. Mas, a obra da Redenção não teria acontecido.

Dostoievski, em seu livro os Irmãos Karamazov, conta-nos uma fábula, por meio de seu personagem Ivan. Essa fábula fala sobre a tentação de Jesus. Na época da Inquisição, um Jesus disfarçado visita uma cidade num período em que os hereges estão sendo queimados.

O grande inquisidor, um cardeal já bastante idoso, percebe que Jesus está andando pela cidade, pois as multidões o seguem. O cardeal não gosta dessa aparição e o lança na prisão. Ali, eles se encontram e travam um diálogo. O inquisidor tem uma acusação a fazer: rejeitando as três tentações, Jesus perdeu o direito aos três grandes poderes que estavam à sua disposição: “milagre, mistério e autoridade”. A idéia era: “Será que Jesus não percebeu que era isso que o povo queria?”. Disse o cardeal: “ Em vez de tomar posse da liberdade dos homens, aumentaste-as e queimaste o reino espiritual da humanidade com seus sofrimentos eternos. Desejaste o amor livre do homem, que ele te seguisse livremente, atraído e cativo por ti”.

Quando Jesus resiste às tentações, segundo o pensamento do cardeal, Jesus tornou-se difícil demais de ser aceito. Sujeitou sua vantagem maior: o poder de impor a fé. “Felizmente”, diz o cardeal, “a igreja reconheceu o erro e o corrigiu, e tem se apoiado no milagre, no mistério e na autoridade desde então”. Por esse motivo, o inquisidor deveria executar Jesus mais uma vez, para que não impedisse a obra da Igreja.
A tentação do deserto revela uma profunda diferença entre o poder de Deus e o poder de Satanás. Satanás tem só poder de coagir, de estontear, de forçar a obediência, de destruir. Os seres humanos aprenderam bem a beber desse poder. O poder de Satanás é coercivo e externo.

O poder de Deus é diferente, é interno e não coercivo. “Não se pode escravizar o homem por meio do milagre, e a fé necessária é gratuita, não fundamentada em milagre”, disse o Jesus da Parábola do personagem de Dostoiévsk ao cardeal. Tal poder pode parecer fraqueza, como todo pai e todo bom amante sabem. Na história da salvação, o Criador se tornaria uma vítima, indefeso diante de um pelotão de soldados em um jardim. Deus se fez fraco com um propósito: deixar que os seres humanos, livremente, escolhessem por si só o que fazer com Ele.

As vezes, sou tentado a pensar que Deus deveria agir com mais rigidez no mundo. Se Deus estendesse a Sua mão e tirasse do nosso meio as pessoas más e miseráveis, corruptos, avarentos, falsos mestres e prepotentes, as coisas seriam mais fáceis. Porém, quando penso assim, percebo em mim o sussurrar da tentação do deserto, do desafio que foi lançado sobre Jesus há dois mil anos. Deus resiste a essas tentações agora como Jesus resistiu às de Satanás no deserto. Diz-no George McDonald: “Em vez de esmagar o poder do mal pela força divina; em vez de compelir a justiça e destruir os perversos; em vez de estabelecer a paz sobre a Terra por meio de um príncipe perfeito; em vez de reunir os filhos de Jerusalém sob Suas asas, quer queiram quer não, e salvá-los dos horrores que angustiavam Sua alma profética – Ele deixa o mal operar à vontade enquanto existir; contentou-se com os métodos lentos e desencorajadores de ajuda essencial; tornando os homens bons; expulsando, não apenas controlando Satanás [...] Amar a Justiça é fazê-la crescer, não é vingá-la [...] Ele resistiu a cada impulso de operar mais rapidamente para um bem inferior”.

Esse é o nosso desafio: entender a tentação para que sigamos Jesus e não a Satanás com suas sutilezas e seus atalhos que nos desviam da cruz.

Eduardo Leandro Alves é pastor e líder do Departamento de Missões da AD em João Pessoa (PB)

Fonte: Jornal Mensageiro da Paz



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