| em 26 maio 2010

A Mensagem de Jeremias

O livro de Jeremias tem menos capítulos que Isaías, porém o texto é mais longo. Na verdade, é um dos livros mais extensos da Bíblia. Os livros desses profetas não são realmente livros como os vemos hoje. Ao examinar Jeremias, você não encontra uma introdução, um corpo de texto e uma conclusão. Talvez seja melhor ver Jeremias como uma coletânea de discursos entremeada com diversos episódios históricos da vida do profeta. Esses discursos ou profecias, foram compilados e postos em ordem cronológica apenas nos sentido mais tosco. O capítulo 1 apresenta o chamado original de Jeremias à profecia, e o capítulo 44 registra sua última profecia, no Egito. No entanto, você não pode presumir que algo que lê no capítulo 17 aconteceu depois de alguma coisa registrada no capítulo 13. por isso, digo que é melhor ler esse livro mais como uma coletânea de discursos ordenados por tema.

Justiça para o Povo de Deus (caps. 1-45, 52)

Os primeiros 45 capítulos de Jeremias destacam com clareza a justiça de Deus que virá contra o seu povo. Talvez, aqui, um pequeno pano de fundo histórico seja útil. Jeremias viveu cerca de cem anos depois do profeta Isaías, o qual profetizou no Reino do Sul (Judá), na mesma época em que o Reino do Norte (Israel) caiu sob a Assíria, o que ocorreu em 722 a.C. Os assírios continuaram a incomodar o Reino do Sul e Jerusalém por todo o século VII e boa parte do século VII. Contudo, a Assíria perdeu poder gradualmente até, em 622 a.C., ser derrubada pela Babilônia.

Entretanto, em meio ao declínio da Assíria e antes da total maturidade da Babilônia, Judá tirou vantagem da situação para recuperar sua força. Em 640 a.C., Josias tornou-se rei e, como governante devoto aproveitou esse vazio de poder dos inimigos para ajudar a nação de Judá a retornar à vida religiosa. Ele também acabou com a prática de pagar tributo ao imperador assírio, pois este já não tinha mais o poder para apoiar a exigência de tributo.

Todavia, mesmo com a queda da Assíria, a Babilônia provou ser um inimigo ainda mais poderoso. Por um tempo, pareceu que o que o Egito vivenciava um renascimento, e muitos em Judá começaram a olhar para o Egito em busca proteção contra a Babilônia. Contudo, no fim do século VII, até mesmo o Egito sofreria uma derrota embaraçosa nas mãos dos babilônios. E, no fim, a Babilônia saquearia Jerusalém.

Foi em meio a esse período tumultuoso que Deus trouxe Jeremias.

Ao ler esse livro e pensar a respeito dos outros profetas, ocorreu-me que, com freqüência, os grandes profetas de Deus surgiram em meio a períodos de decadência entre o povo do Senhor e em volta dele. De forma típica, Deus, em sua misericórdia, fornece um vislumbre das coisas duradouras sempre que o mundo começa a mostrar sua natureza transitória, sempre que as coisas supostamente imutáveis da vida começam a ruir e a falhar. Sempre que um governo – ou uma nação, ou uma organização – é novo, queremos acreditar que seu prognóstico é brilhante. Todavia, quando alguma coisa arrasta-se lentamente e, depois, começa a declinar em direção ao seu fim total, com freqüência, descobrimos que nossa mente se volta para Deus. Isso também aconteceu quando Deus começou a falar por intermédio de Jeremias.

Cerca de cem anos antes, o povo desfrutaria de um grande rei – Ezequias – durante a época em que Isaías profetizara. No entanto, depois de Ezequias, houve uma sucessão de muitos reis horríveis. Depois, em Josias, eles tiveram de novo um grande rei, porém Josias nunca foi capaz de reformar a nação totalmente. E depois de sua morte, a nação logo voltou para o pecado, até mesmo pecados terríveis!

“Sempre que tendemos a nos sentir céticos ou cansados do mundo em que vivemos, Jeremias pode ser bom para o que nos aflige”

De muitas formas, os primeiros 45 capítulos dos 52 que compõem o livro parecem uma longa ação judicial de um pedido de divórcio. Deus sente a ira ardorosa por seu povo. A certa altura, Ele promete: “Porque, eis que, na cidade que se chama pelo meu nome, começo a castigar” (25.29). Você vê a tragédia? O Senhor decide trazer justiça sobre o povo que se chama pelo seu nome.


O Motivo do Julgamento

Quais eram as acusações? Bem, o livro as expõe em grande extensão. Como disse, o livro não segue a ordem cronológica, porém, esse tema está presente do começo ao fim da maioria dos capítulos. Mesmo no chamado inicial de Jeremias para profetizar, o tema é mencionado (Jr 1.16). Jeremias foi chamado para profetizar exatamente por que o povo de Deus quebrou sua aliança com o Senhor. Eles o abandonaram. Eles adoraram ídolos. Essa é a petição de Deus contra eles. Ou, para usar suas palavras irônicas, eles adoraram as “obras das suas mãos”. Que coisa, evidente em si mesma, ridícula de se fazer! É estúpido adorar algo que fizemos com nossas próprias mãos! No entanto, essa é exatamente a acusação que o Deus onisciente faz contra seu povo.

Na verdade, é provável que você possa imaginar uma insanidade dessas se pensar no assunto. Provavelmente, há outras coisas feitas por suas mãos ou pelas de outra pessoa às quais seu coração se inclina, se sente atraído. Bem, essa coisa, cuja estupidez é evidente em si mesma, é exatamente o que o povo do Senhor fazia. Israel trocara o Deus verdadeiro por ídolos. “Assim diz o Senhor: Que injustiça acharam vossos pais em mim, para se afastarem de mim, indo após a vaidade e tornando-se levianos?”, Jr 2.5.

A seguir, o Senhor divide essa acusação em duas outras mais específicas: “Porque o meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manacial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas de rotas, que não retêm as águas” (2.13). Primeiro, eles o abandonaram e, segundo, cavaram seu próprio poço da vida inaproveitável.

Alguns versículos adiante, Deus, com outra imagem chocante, descreve o que tudo isso representa: eles são como prostitutas (Jr 2.20). E Deus continua apresentando o seu caso (Jr 2.23-28).

No capítulo 3, a acusação continua (3.1-5). O livro de Jeremias prossegue dessa maneira por 45 capítulos. Deus é claro com seu povo: eles se tornaram descarados em seu pecado. Eles não tem vergonha. Eles se acostumaram tanto a se prostituir com os outros deuses que nem mesmo coram. E mentem quando afirmam ser devotados ao Senhor. Mais de uma vez, Ele disse-lhes: “porque os teus deuses, Judá, são tão numerosos como as tuas cidades”.

Deus lhes faz perguntas com bastante franqueza (Jr 5.7-9). A última ressoa por todo o livro: “Ou não se vingaria a minha alma? (...) Deixaria eu de castigar estas coisas?”. Quando o povo de Deus pede sua justiça, chamam o julgamento dEle sobre si mesmos, não apenas sobre o povo mau de fora. O Senhor lhes diz para se esquecerem dos outros povos e também declara: “Como, vendo isso, te perdoaria?”.

As acusações apenas aumentam, e o Senhor mostra-se mais e mais resolvido a puni-los (Jr 32.30-34). Toda a nação pecou contra Deus. Até a devoção religiosa deles era errada. No que é conhecido como sermão de Jeremias do Templo, o Senhor repete zombeteiramente a declaração do povo de se sentir seguro, porque têm o Templo de Jeová diante deles. Com certeza, nada aconteceria com eles no Templo, certo?

Durante todo o tempo, a Babilônia se aproxima com seus exércitos, e o Senhor repreende-os por intermédio de Jeremias (Jr 7.9-11). Eles até queimavam os filhos e as filhas no fogo em adoração a Maloque, oferecendo os membros da própria família em sacrifício humano em sua religião falsa e detestável. Eles chegaram a um impasse terrível em que Deus não se importava com a adoração religiosa e vazia deles. Entravam na casa de Jeová, às vezes, faziam a coisa certa, mas o Senhor sabia todas as outras coisas que estavam fazendo. Sabia que não se importavam com sua Palavra (Jr 6.19, 20). Na verdade, sua Palavra tornara-se “vergonhosa” para eles (Jr 6.10).

“Jeremias foi chamado para profetizar exatamente porque o povo de Deus quebrou sua aliança com o Senhor”

O que acontece quando a Palavra de Deus se torna vergonhosa para seu povo? Eles adotam professores e profetas que lhes ensinaram alguma outra coisa (Jr 5.30, 31a). Profetas, os porta-vozes de Deus, profetizam mentiras? Sacerdotes, os mediadores de Jeová, levam vida imoral? E o povo do Senhor deseja que seja dessa maneira? Deus não se vingaria de nações como essa?


A Promessa de Julgamento

Deus enviou Jeremias para transmitir a mensagem do julgamento vindouro, mesmo contra o povo que se chama pelo nome do Senhor. Na verdade, a promessa de justiça era especificamente contra a nação santa porque era chamada pelo seu nome (Jr 6.30).
Como exatamente o Senhor julgaria seu povo? Parte da resposta inclui coisas como falsos profetas e fome. Todavia, Deus responderia, principalmente, à desobediência do povo com um exército com um exército: Ele destruiria a nação. O Senhor simbolizou essa destruição com um vaso de barro que mandou Jeremias comprar e destruir na frente da multidão com as seguintes palavras: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Deste modo quebrarei eu este povo e esta cidade, como se quebra o vaso do oleiro”, Jr 19.11.

Talvez tenha havido uma quantidade dos assim chamados profetas que correram por toda parte gritando “Paz, paz, mas não houve paz (Jr 6.14; 8.11). Em vez disso, Deus entregou seu povo àqueles em quem realmente confiavam. Ele os exilou na Babilônia durante setenta anos. O capítulo final de Jeremias apresenta o relato histórico relatado em 2Reis (24.18-25.21), que descreve a queda de Jerusalém, a captura do rei Ezequias, a destruição do Templo e do muro da cidade e, por fim, o exílio do povo.

Do começo ao fim das profecias de Jeremias, Deus responde de forma apaixonada a seu povo e à sua desobediência. Ele soa como um marido pesaroso. Uma vez após outra, Deus entrelaça as imagens de idolatria e de adultério a fim de mostrar a seu povo que os tomara como sua noiva especial, que se casara com eles, que se comprometera com eles, que até pusera sua reputação em risco no partilhar seu nome com eles, mas eles foram infiéis. Eles se prostituíram com outros deuses. Ao viver e ao adorar como fizeram, trouxeram desgraça para o nome dEle.

Deus revela-se no livro de Jeremias e em outras passagens como um Deus pessoal que é santo e que se importa. Não podemos exigir que um Deus tão santo e amoroso não seja crítico com pessoas como nós. Ele, em seu amor, não nos deixará como pessoas quebradas, feridas, obstinadas, frustradas consigo mesmas e caídas, como estávamos quando Ele nos encontrou. Em Cristo, Ele nos ama de forma eficaz e nos faz melhor do que somos. Na verdade, no fim, Ele nos fará perfeitos como Cristo.

Texto extraído do livro A mensagem do Antigo Testamento (CPAD), de Mark Dever.

Fonte: Revista Ensinador Cristão



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