| em 12 julho 2010

Como a Bíblia chegou até nós?

Profeta, legislador, senhor de servos e dono de rebanhos, ou simplesmente pastor de ovelhas, o primeiro homem que registrou as primeiras palavras do primeiro livro da Bíblia não dispunha de muitos recursos materiais para a execução de seu trabalho literário. Antes dele, e há milhares de anos, os primeiros descendentes de Adão e Eva vinham utilizando a face lisa das rochas para desenhar animais, figuras humanas e símbolos ritualísticos, ou para contar a história de guerras, de epidemias, de enchentes, de fartura e de paz.

Porém, certamente o primeiro homem que o Altíssimo inspirou a escrever o texto que deu início ao registro da Revelação divina à humanidade – a Bíblia –, não fez uso da pedra para dar forma escrita à Mensagem do Senhor. Curiosamente, esse método de registro de palavras em pedra foi, certa vez, utilizado pelo profeta Isaías (Is 8.1), quando Deus, mandou que o profeta tomasse “uma ardósia grande”, e escrevesse sobre ela (na edição Almeida Revista e Atualizada. Na edição Almeida Revista e Corrigida, a expressão usada é “toma um grande volume”). No Dicionário Houaiss, a palavra “ardósia” é definida como uma “rocha metamórfica compacta, de granulação fina e cor cinza”, também usada como lousa, ou quadro.

Moisés, ao escrever os livros que compõem o Pentateuco, não fez uso da escrita cuneiforme (em forma de cunha), nem das tabuinhas de argila, ou tijolinhos, utilizados como instrumentos de escrita na civilização babilônica. Porém, o profeta Ezequiel usou certa vez essa superfície física para gravar a figura da cidade de Jerusalém (Ez 4.1). Quem fez uso da pedra para registrar seus mandamentos foi o próprio Senhor, ao preparar e entregar a Moisés as tábuas de pedra contendo a lei a e os demais preceitos divinos (Êx 24.12).


A “Caneta” e o “Caderno” de Moisés

Porém, para tudo o mais que escreveu (Êx 24.4), Moisés utilizou rolos de papiro e uma cana de junco, conhecida como pluma, que variava de 15 a 40 centímetros de comprimento (Vide Josh McDowell. Evidencia que exige um veredicto [trad. Espanhola]. Editorial Vida. Miami, FLA, 1982, p.30. Há uma edição brasileira deste livro pela Editora Candeia). Sua extremidade era cortada em forma de cinzel (“instrumento manual que tem numa extremidade uma lâmina de metal resistente muito aguçada”, Houaiss), e isto permitia fazer-se inscrições grossas ou finas. Uma análise minuciosa da tinta utilizada nos papiros mostrou que esta era um composto de carvão, goma e água, ao que acrescentavam um ácido, para torná-la perdurável.

O papiro era uma planta em forma de cana que crescia abundantemente nos lugares de pouca profundidade dos lagos e rios do Egito e da Mesopotâmia, cuja medula era cortada em tiras, e estas eram unidas em ângulo reto umas com as outras, em seguida prensadas e colocadas para secar.

Depois de prensadas, as tiras formavam uma espécie de papel áspero, sendo posteriormente suavizado pelo atrito de uma pedra lisa. Em seguida, várias dessas folhas de papiro eram unidas umas às outras, formando rolos que mediam até dez metros de comprimento. (Foi descoberto um rolo que media nada mais que 48 metros! – Carlos W. Turner. El Libro Desconocido. Librerie La Aurora. Buenos Aires, 1943, p.12. Vide também Josh McDowell, op. Cit.).


Confirmado: Moisés escreveu o Pentateuco

Já que estamos fazendo referências a Moisés, em sua qualidade de escritor sagrado, é oportuno lembrar aqui que o grande legislador hebreu certa vez foi motivo de uma grande polêmica, ocorrida entre os detratores da Bíblia e vários especialistas no Antigo Testamento. Baseados em alguns documentos antigos, os representantes da chamada “alta crítica” da Bíblia afirmaram que Moisés não poderia ter escrito o Pentateuco, pois no seu tempo a escrita ainda era desconhecida. Em conseqüência disso o Pentateuco, teria sido escrito por um autor mais recente.

Mas essa afirmação desmoronou por completo quando alguns arqueólogos, que faziam escavações nas proximidades das ruínas da Babilônia, descobriram o “código negro”, as famosas Leis de Hamurábi. Tratava-se de um grande bloco de pedra negra, com leis babilônicas escritas em caracteres cuneiformes, sendo vários séculos mais antigo do que os escritos de Moisés; sendo, inclusive, anterior ao próprio Abraão. Portanto, a humanidade já vinha utilizando-se da escrita desde períodos muito mais remotos do que se pensava.

Não fosse o zelo e a inesgotável paciência dos copistas que preparavam o maior número possível de cópias dos originais do Antigo Testamento, hoje praticamente quase todos os seus livros estariam perdidos, pois os papiros eram frágeis, e se desgastavam depois de um certo tempo, sobretudo quando expostos à umidade. (Haja vista que os manuscritos descobertos em 1947, nas cavernas de Qumran, próximas ao Mar Morto, só permaneceram intactos por terem sido escritos sobre pergaminho, e guardados dentro de cilindros de barro em uma região de clima seco.)

A fragilidade do papiro levou homens a procurarem outro material mais resistente, e assim o papiro foi substituído pelo pergaminho – a pele de ovelhas e de outros animais. Depois de submetidas a uma rigorosa raspagem, as peles eram esticadas ao sol. Além de mais durável, o pergaminho mostrou-se um material muito mais prático e cômodo, tanto para formação e rolos como para a escrita em si, e continuou sendo utilizado por todo o mundo antigo, até Gutenberg inventar a imprensa no final do século XV.


O Trabalho extraordinário dos Massoretas

Na luta contra o desgaste e o desaparecimento dos manuscritos sagrados destacaram-se, entre todos os que se dedicaram à preservação da Palavra de Deus, um grupo de sábios judeus, os massoretas. O pesquisador Diego Arenhoevel (Assim se formou a Bíblia. Edições Paulinas. São Paulo, 1978. P. 34) afirma que os massoretas “contavam os versículos, as palavras e mesmo as letras de cada livro, para garantir que, durante a atividade de preparação das cópias, não se perdesse nenhuma letra que fosse”.

Extremamente zelosos com o que faziam, os massoretas, antes de começarem suas atividades, purificavam-se, vestiam roupas especiais, e todas as vezes que iam escrever o nome de Deus, utilizavam outro instrumento de escrita, especialmente reservado para esse mister. Entre eles havia uma recomendação: “Quando você estiver no trabalho de copista, e for copiar o nome de Deus, não se distraia com nada. Se alguém nesse momento lhe dirigir a palavra, não pare para atender a essa pessoa, mesmo que ela seja o próprio rei, e isto lhe custe o risco de ser decapitado. Não desvie sua atenção, pois você está escrevendo o Nome que está acima de todo nome”. Graças a esses homens, que se dedicaram, com piedade e zelo, a copiar fidedignamente o texto sagrado, hoje tem sido possível constatar a fidelidade do texto bíblico atual em relação aos mais antigos manuscritos.


Outras Importantes Descobertas

Além da grande descoberta dos manuscritos do mar Morto, houve também outras igualmente importantes, tanto no campo da arqueologia como no da filologia. Quando a Pedra de Roseta foi decifrada pelo sábio francês François Champollion (a pedra foi encontrada no delta Nilo, próximo à Alexandria, por Napoleão Bonaparte e sua comitiva de sábios, e estava recoberta com registros hieróglifos – sinais que os antigos egípcios usavam como escrita), e quando outros filólogos conseguiram decifrar a escrita cuneiforme, tornou-se possível ler os antigos registros do Egito, da Babilônia, da Assíria e da Pérsia. Então, diante de historiadores e sábios, a verdade e o fundamento histórico, religioso e literário do Antigo Testamento foi indiscutivelmente comprovado.

Certa vez, um jovem seminarista alemão, estudioso do Novo Testamento, estava examinando papiros antigos, com documentos em grego (cartas, contratos, arrependimentos, convites, registros, notícias e bilhetes privados), escritos por pessoas que vieram no tempo em que o Novo Testamento foi escrito. Pouco a pouco, ele começou a ficar admirado coma a semelhança do grego daqueles documentos (simples, familiar, utilizado no dia-a-dia) com o grego que o apóstolo Paulo havia usado para escrever suas cartas.

Aquela descoberta vinha resolver um problema há muito insolúvel – por que o Novo Testamento havia sido escrito em uma linguagem não-clássica, não-literária, em grego koinê, popular? A descoberta do seminarista Adolf Deisman, no convento de Santa Catarina do Monte Sinai, comprovou que aquilo havia sido uma providência de Deus para que o Evangelho atingisse rapidamente as camadas populares daquela época, e a verdade fosse guardada no coração e na mente do povo. A Revelação de Deus alcançou, em pouco tempo, a todos, graças à linguagem maravilhosa e simples em que foi escrita.

O próprio apóstolo Paulo, no primeiro capítulo da 1ª Carta aos Coríntios, desconsiderou o estilo literário, e isto lhe custou severas censuras da parte dos crentes de Corinto, que criticaram sua maneira rude de usar o grego (2 Co 11.6). Porém, os papiros encontrados pelos arqueólogos têm confirmado que o apóstolo, ao escrever suas cartas, na grandeza de sua simplicidade, não quis fazer uso de um estilo retórico, e até fugiu de palavras rebuscadas. Agindo assim, ele construiu o maior monumento teológico-literário a serviço da grandiosa e simples mensagem de Jesus Cristo, o Senhor da Verdade e da Simplicidade.


Por Jeferson M. Costa
Fonte: Visão Bíblica - Revista Teológica de Estudos Bíblicos



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