| em 21 agosto 2010

Tentação: diabo ou carne?


A liberdade de escolha não foi conquistada pelo homem, ao contrário, esta é um dos tantos dons concedidos por Deus ao ser humano. O criador poderia ter feito o homem à semelhança das outras espécies, as quais se valem do instinto para sobreviver, toda via preferiu fazê-lo dotado da capacidade de tomar decisões segundo o que lhe aprouver, contanto que saiba das conseqüências destas escolhas. Por meio da liberdade de escolha ou livre-arbítrio o ser humano tem a possibilidade de agir conforme a inclinação do seu coração. Tudo começa com o ato de desejar. O nosso desejo mais íntimo define a nossa escolha. A tendência é sempre desejarmos o mais fácil, da forma mais cômoda e no tempo mais imediato possível. Temos uma inclinação para a urgência. Esse desejo certamente não é espiritual, pois o espírito espera o tempo divino, anseia pelo sublime, tem sede (desejo) de Deus. A natureza humana transgride desde o princípio, pois confrontada com a necessidade de obedecer optou saciar o seu desejo imediato de saber o porquê. “E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16, 17). “Porque não posso desejar?”, deve ter se perguntado o primeiro homem. A partir deste questionamento surge o desejo de saber a resposta.

A história dos irmãos Caim e Abel mostra que a atitude de cada um foi um reflexo do desejo mais íntimo do coração: “Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao Senhor. Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o Senhor de Abel e de sua obra; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou. Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante. Então lhe disse o Senhor: Por que andas irado e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4.3-7). Dependendo do desejo ele pode ser contra ou a favor daquele que deseja. O desejo de Caim gerou um mal proceder e por isso Deus não se agradou de suas obras. Tempos depois, por não conseguir dominar o seu mal desejo, Caim matou seu próprio irmão. Assim é conosco: Os nossos desejos podem gerar atitudes que beneficiam ou prejudicam, transformam ou deformam a vida. Esse desejo deformador ou prejudicial é chamado de cobiça. A cobiça é sempre o querer algo que está além do desejável, isto é, cobiçar é desejar o que não se deve desejar. Do que se pode desejar (desiderata) pouco é desejado, mas do que não se pode a natureza humana (carne) se alimenta.


Tentações, tentativas e experiências

O apóstolo Paulo sabia da existência desta complexa questão: “porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim” (Rm 7.18-21). Por termos liberdade de escolha estamos constantemente diante da difícil tarefa de praticar o bem que conhecemos. Quanto ao mal nem precisamos nos esforçar tanto. Esta fraqueza que não nos permite praticar o bem é chamada de tentação. “Tentar é uma tradução do verbo grego peirazo que significa propriamente ‘fazer uma tentativa, provar alguma coisa, colocar alguma coisa à prova’. Existe a forma composta ekpeirazo, usada também por Mateus e Lucas, de onde veio o nosso ‘experimentar, fazer uma experiência’. Daqui podemos perceber que a tentação é o mesmo que tentativa e experiência..” (Ivo Storniolo in: “As tentações de Jesus”, p.260.) A carne tem desejos maus e a sua inclinação é para a morte. Paulo, o apóstolo da Graça, nos ensina que há um espírito que atua naqueles que não conseguem ser obedientes, isto é, naqueles que não conseguem dominar os seus maus desejos. Este espírito é conhecido pela tradição religiosa por demônio, diabo, satanás. Este espírito é visto como um ser que pensa por si mesmo, que calcula e maquina contra os filhos de Deus. Em suma: A tradição religiosa credita a um ser invisível uma ação (sobrenatural) que somente o Senhor pode realizar. Mas que espírito é este? Para muitos é realmente um demônio. Será que Jesus, no deserto, foi tentado por um demônio? Primeiramente é preciso lembrar de que o deserto é o lugar para onde Jesus se retirou muitas vezes a fim de encontrar-se com o Pai, aprofundando o sentido da sua missão, que era realizar a vontade de Deus: “Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto e ali orava” (Mc 1.35). É no deserto que Jesus recupera toda a experiência que o povo de Israel tinha vivido. Por outro lado, é no momento desértico (de escassez, abandono, solidão) que desejamos o que não se deve desejar. O homicida é dominado pelo espírito da ira (ausência de misericórdia), o ladrão é dominado pelo espírito da cobiça (ausência de satisfação), o alcoólatra é dominado pelo espírito da compulsão; assim como o drogado, o mentiroso, o soberbo, o consumidor desenfreado. Estes espíritos só se manifestam no deserto da vida de cada pessoa.


Jesus foi tentado pelo diabo?

Jesus também passou pelo deserto e nesse momento vários desejos se manifestaram. Seriam estes desejos próprios da natureza humana de Jesus ou ele estava sendo influenciado por um ser que o acompanhava fazendo propostas indecorosas? “O que há de verdade nisso tudo? Será que foi um ser desse tipo que tentou Jesus? Será que o que pensamos das tentações coincide com o que Jesus enfrentou? Aqui é interessante uma cuidadosa análise de vocabulário.

Satanás é o termo que Marcos usa para caracterizar o tentador de Jesus. Temos duas formas desse nome: ‘Satanás’ vem do grego ‘satanás’, que deu o conhecido ‘Satã’. Os dois nomes, porém, significam a mesma realidade. Sua primeira origem é o verbo hebraico ‘Satã’, que significa ‘incomodar’. Como substantivo, ‘Satã’ é o nome de tudo aquilo que contraria alguma coisa, e por isso é traduzido em português por ‘adversário’, tanto o adversário em geral, como a função jurídica do promotor público no tribunal, com seu papel de acusar e contradizer o réu, tentando comprovar a sua culpabilidade (leia o livro de Jó, 1-2).

Satanás, portanto, é tudo aquilo que procura incomodar e contrariar uma determinada realidade ou disposição. Pode ser uma pessoa adversária ou inimiga, ou então uma estrutura, instituição, ou ainda um costume contrário. É esse nome que o evangelista Marcos dá ao tentador ou tentadores de Jesus.

Mateus e Lucas, ao contrário de Marcos, dizem que Jesus foi tentado pelo diabo. Essa palavra vem do grego ‘diábalos’, uma forma substantiva do verbo ‘diabállo’, que significa jogar um obstáculo entre duas coisas para provocar a sua divisão. Diabo é, portanto, aquele que provoca divisão, seja dentro da pessoa ou entre as pessoas. Diabólico é tudo o que provoca divisão ou dúvida, sendo que esta última é uma divisão em potencial.

Dizendo que Jesus enfrentou o diabo, Mateus e Lucas afirmam que Jesus teve que enfrentar muitas dúvidas e obstáculos que procuravam impedir a realização do seu projeto. Segundo Mateus, a missão de Jesus era realizar toda a justiça, isto é, a vontade de Deus. “Lucas dá um passo à frente: a justiça que Deus quer é a libertação dos pobres e oprimidos que perderam sua liberdade e vida por causa de uma estrutura social injusta” (“As tentações de Jesus”, p.23-25).

Ao que tudo indica o diabo “pintado” pela tradição religiosa é tão-somente uma máscara sem rosto, ou seja, não existe por detrás destes nomes (diabo, satanás, demônio, encosto) um ser que digladia com Jesus pelo domínio do mundo. O que existe é um desejo humano que se contrapõe à vontade de Deus. “Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência (desejo mau) da carne. Porém a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura seja do vosso querer” (Gl 5.17). O apóstolo que constatou a existência de um conflito de interesses (Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que eu não quero, esse faço) é o mesmo que concluiu que na carne não há bem algum. Diante destas orientações quem pode dizer que foi tentado pela bebida, pela droga, pela sensualidade, pelo dinheiro, ou seja, há tentação que não parta da própria pessoa? O apóstolo Tiago responde: Ninguém, ao ser tentado, diga: sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. “Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1.13-15).


Resistindo as Tentações

O evangelho da graça é como uma bússola ajustada e apontada sempre para o norte. A função da Igreja do Senhor Jesus Cristo é, pelo evangelho da graça, nortear os que navegam sem rumo no mar da vida, sem um porto seguro e adequado para descansar. Com a palavra da graça podemos atravessar o deserto e resistir às tentações. ‘’...resistir ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4.7). Se você se sente abandonado, solitário, necessitado de recursos materiais para sustentar a sua família ou até enfermo,saiba que são nestes momentos desérticos que a carne faz as tentativas de afastar-lhe dos propósitos de Deus. Foi no deserto da vida que Jó ouviu da própria esposa estas palavras: “Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2.9). Não permita que o desejo de vingança, o pensamento negativo ou o desejo mal venham lhe fazer naufragar na fé. A carne faz tentativas mas o espírito recebeu de Deus poder para resistir. “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia. “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é Fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar” (1CO 10.12-13).

A resposta para pergunta “Tentação: diabo ou carne?” é esta: Visto que a carne é adversária do espírito e o termo diabo significa adversário, logo a carne é diabólica, isto é tentação = diabo e carne, pois carne é diabo. Resista à tentação.


Fonte: Jornal Verdades que Libertam



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