| em 21 dezembro 2010

Por que os filhos ficam cada vez mais tempo morando com os pais



Eles protestam por mais liberdade e vivem reclamando da falta de privacidade, mas não dispensam uma casa bem arrumada, as contas pagas, comida na mesa e roupa lavada. Os jovens vêm contrariando as expectativas da sociedade e provam que nunca é tarde para sair da casa dos pais.

Para a psicóloga Kátia Beal, especialista em psicoterapia cognitivo-comportamental e pesquisadora na área de relacionamentos, a explicação para esta atitude teria ligação com a falta de incentivo da família. “A nova geração, pelo menos na camada com maior poder aquisitivo, não é mais pressionada a sair de casa e constituir família. Muito pelo contrário, atualmente os pais fazem questão de manter os filhos em casa por mais tempo, muitas vezes boicotando sua saída”, explica.

Kátia afirma ainda que se há algum tempo os pais incentivavam os herdeiros a comprar um imóvel, casar e ter filhos, hoje adaptam a própria casa às necessidades dos filhos adultos para mantê-los perto por mais tempo. “Autonomia e independência já não são mais prioridades na vida dos jovens, até porque têm um custo alto”, ressalta. Além de ter a “comidinha da mamãe”, os jovens de hoje encontram na casa dos pais toda a liberdade de que precisam, fator que colabora para o esquecimento da antiga necessidade de ter seu próprio “cantinho”. “Para a maior parte, não vale a pena sacrificar o conforto pela independência”, garante.

Este é o caso do design gráfico Marcelo, de 30 anos, que vive no Rio de Janeiro. Embora já tenha pensado em sair da casa onde mora com a mãe e a irmã, de 26 anos, ele afirma que desfrutar da “comodidade de ter tudo a qualquer hora, sem fazer muito esforço” é um bom motivo para abrir mão de uma vida independente. “O preço a pagar para viver sozinho” também pesa na escolha, uma vez que não permite usar seu dinheiro da forma que achar melhor.

Com um emprego estável, Marcelo realmente já conquistou muitas coisas, como um carro, que mantém sem muito esforço, além de uma vida social pra lá de agitada. Enquanto isso, a posição dos pais é clara. “Não se oporiam se eu resolvesse sair de casa. Só se preocupam se vou conseguir dar conta das responsabilidades morando sozinho.” Mas, embora a opção permita regalias, também gera desconforto. “A desvantagem é que, por você ter tudo isso, tem certa obrigação de dar satisfação do que faz da vida”, salienta.


Superproteção

A maturidade parece demorar a chegar na vida desses eternos adolescentes, que esperam estar seguros da decisão para morar sozinhos. A especialista aponta ainda uma outra forma de dependência. “Há também os jovens que saem de casa, mas continuam sendo sustentados e recorrem à família a cada problema”, exemplifica Kátia Beal.

Essa superproteção dos pais seria reflexo das mudanças na sociedade, que contribuem diretamente para o medo da violência e outros perigos da vida moderna. Em casa, eles estariam sob seus olhares protetores. “Sair de casa e ser ‘financiado’ é continuar dependente, tendo somente as vantagens de se morar sozinho e nenhuma responsabilidade; dessa forma, os pais não contribuem para a maturidade dos filhos”, afirma.

O grande fantasma na vida desses jovens chama-se responsabilidade. Beal observa que esta vem sendo adiada, devido à falta de imposição de regras e condições por parte dos donos da casa. “Orientando os filhos a cuidar das próprias coisas, contribuir com despesas, ou mesmo assumir seus próprios gastos, economizando para quando sair de casa, os pais estariam contribuindo para o desenvolvimento dos filhos”, afirma.


Independência... E agora?

Entretanto, há casos de jovens que correm atrás da independência, abrindo mão de toda e qualquer facilidade, em busca de seus sonhos. A comunicóloga Juliana, de 24 anos, é exemplo de ousadia e perseverança. Criada em Campos, interior do Rio de Janeiro, ela sempre sonhou em estudar na “cidade grande” e batalhou para fazer valer sua vontade. Filha única de um casal conservador, ela encarou todos os desafios e foi atrás de uma bolsa em uma grande universidade. Após morar em um pensionato por cinco anos, a moça conseguiu se formar e alcançar estabilidade financeira para manter um apartamento em um bairro de classe média do Rio.

“A vantagem é a liberdade. Por outro lado, a cama não se arruma sozinha, e a comida não aparece pronta. É bom ter o próprio espaço, mas tem de assumir muitas responsabilidades. Mesmo com liberdade e privacidade, sinto falta de alguém por perto, como quando fico doente. Na casa dos meus pais, sempre tinha alguém para cuidar de mim a qualquer hora”, pondera.
Apesar das dificuldades, a jovem garante que nunca pensou em voltar às origens e atribui essa postura aos valores que aprendeu desde criança. “Eu sabia que iria enfrentar problemas. Faz parte do pacote. Já era responsável antes de morar sozinha, devido à criação que recebi de meus pais. Sempre me alertaram que eu deveria arcar com as conseqüências das minhas atitudes.”

Por necessidade ou como forma de superar essa fase de descobertas de uma forma mais amena, muitos optam por dividir a casa com outras pessoas. Segundo Kátia Beal, a experiência é válida, desde que se estabeleçam limites e respeito entre os moradores acerca dos hábitos em casa. “Morar com outras pessoas pode ser também um excelente exercício de maturidade e respeito ao próximo, aprendendo-se a ter mais responsabilidades e a viver as experiências da vida adulta”, aposta.

Ao contrário de Juliana, a bióloga Paula, de 25 anos, se viu obrigada a abandonar os mimos dos pais, no Rio de Janeiro, para estudar na Universidade Estadual do Norte Fluminense, em Campos. Morando nas chamadas “repúblicas”, residências onde vivem diversos estudantes, a jovem teve que amadurecer em meio aos conflitos do dia-a-dia. “Sem dúvida, a liberdade é uma das grandes vantagens de sair da casa dos pais, mas não é fácil cortar o cordão umbilical. Diversas vezes a saudade fala mais alto, afinal eles são uma parte de mim. É muito difícil abdicar de momentos ao lado deles e conviver com estranhos. É uma mudança muito brusca. Não é fácil passar por algum aperto e não poder correr e gritar ‘mãe, me ajuda!’”, confessa.

Entretanto, a vida reservou grandes descobertas para a adolescente, que acabou tomando gosto por ter em suas mãos total autonomia sobre sua vida. Hoje, formada, Paula teve que voltar para a casa dos pais, devido à falta de oportunidades de emprego na cidade onde estudou. Ela está passando por grandes dificuldades para se readaptar à antiga vida de muitas mordomias e cobranças em dobro. “A forma como meus pais impõem suas regras e o fato de não respeitarem minha privacidade fazem com que me afaste deles. Não porque não os ame, e sim porque eles mesmos não conseguem aceitar que cresci e agora criei novos hábitos. Hoje tenho meus próprios costumes”, analisa.

Ao contrário do eterno adolescente Marcelo, a história da bióloga demonstra que esse movimento de superproteção dos pais modernos pode se refletir de forma diferente, dependendo da personalidade de cada filho. “Muitas vezes, a proteção de meus pais me sufoca. Eles não entendem que não preciso de todo o conforto que me proporcionam para ser feliz e que posso viver com o pouco que conquistar com meu próprio esforço. Para eles, a minha vontade de sair de casa novamente não faz sentido. Mas vivo na esperança de que um dia ao menos respeitem a minha decisão”, conclui Juliana.

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Colaborou Margareth Varela
*Os nomes dos personagens foram modificados em respeito à privacidade de cada um


Fonte: Revista Plenitude



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