| em 20 fevereiro 2011

O grande Dilúvio de Gênesis


“O dilúvio é um dos fatos mais confirmados da Bíblia. Há provas indiscutíveis de que houve uma grande inundação na Mesopotâmia antes da era patriarcal”


Ainda que seja um fato ocorrido milhares de anos atrás, o Dilúvio é um tema mais do que relevante em nossos dias. As águas de março já fecharam o verão, mas a grande preocupação de muitos hoje ainda é com o clima. Será que o aquecimento global irá trazer um caos no clima mundial? O desastre provocado pelo tsunami do sudeste asiático ainda retine na cabeça de muitos. Está na hora de olhar a meteorologia e pensar numa “teologia do tempo”.

Afinal de contas, qual a importância e relevância do Dilúvio? Quais as questões discutidas sobre o assunto? Temos respostas para todas as perguntas?

Em primeiro lugar, é preciso respeitar que o Dilúvio não é assunto que se limita à narrativa bíblica. A grande verdade é que se trata de um tema universal.

Documentos egípcios falam que Ra decidiu exterminar o homem com o dilúvio de sangue que atingiu Heliópolis, morada dos deuses. Na mitologia indiana, conta-se que um peixe disse a Manu que um dilúvio destruiria todas as criaturas. Manu deveria construir uma embarcação e adorar o peixe, que acabaria por puxar o barco e salvar Manu, o único sobrevivente da grande enchente. Os gregos também mencionam o adailúvio em cinco lendas, conforme Plutarco. Na mais importante, Zeus envia um dilúvio, no qual Deucalião e Pirra salvaram os filhos e os animais a bordo de um navio na forma de caixa. A descrição de um grande dilúvio também é comum na China, e em muitas culturas asiáticas, africanas e ameríndias.

A semelhança maior com a Bíblia, porém, aparece na Babilônia. O documento mais famoso é a Epopéia de Gilgamés, que apresenta a principal correlação com o texto bíblico. O texto babilônico fala que Gilgamés é avisado sobre o dilúvio por Utnapishtim, que, como Noé, é salvo das águas do dilúvio. No relato, ele diz que o deus criador Ea avisou-o do dilúvio e ordenou-lhe que construísse um barco, onde levou sua família, bens e todas as criaturas vivas. O texto ainda afirma que a tempestade durou até o sétimo dia, e a terra seca apareceu no décimo segundo dia, quando o barco repousou no monte Nisir.

Outro texto babilônico antigo, paralelo ao Gênesis, é o Épico de Atrahasis. A história, contendo a perspectiva religiosa babilônica, contem muitos detalhes semelhantes aos relatos bíblicos da criação e do dilúvio. No conto babilônico, os homens se multiplicaram na terra e se tornaram barulhentos; por isso, um dilúvio foi enviado para destruir a humanidade. Um homem chamado Atrahasis é avisado sobre o dilúvio e recebe ordens para construir um barco. Ele constrói o barco e enche-o de alimento, animais e pássaros. Assim, ele se salva, enquanto o resto do mundo morre. No final da história, Atrahasis oferece um sacrifício aos deuses, e o deus principal aceita que o homem continue a viver na terra.

Muitos tentaram explicar todos esses relatos das mais diversas formas. Alguns disseram que o Dilúvio é uma lenda universal que mostra o “inconsciente coletivo” do ser humano. Outros afirmaram que são relatos independentes, que apenas simbolizam o renascimento da vida depois da chuva. Houve quem sugerisse que as lendas sobre um dilúvio são recordações derivadas do degelo da grande era glacial, ocorrida há vários milênios. A grande verdade é que a única coisa que todos esses relatos comprovam é que houve algum dilúvio. Não é possível que haja tantas histórias sem que nada tenha acontecido! Além disso, é impossível duvidar que uma grande inundação tenha acontecido pelo menos na região da Mesopotâmia, principalmente devido às semelhanças dos relatos.

A outra questão levantada pelos críticos da Bíblia é a de que os hebreus teriam copiado o dilúvio dos babilônios, já que tais relatos seriam mais antigos. O fato é que os primeiros hebreus vieram da Babilônia (Abraão) e conheciam a história do dilúvio. A diferença está na interpretação teológica do dilúvio. Os babilônios o relatam a partir de suas crenças; os hebreus, a partir da fé no Deus de Israel.

A arqueologia já comprovou que há cerca de 6 mil anos uma gigantesca inundação atingiu a Mesopotâmia. Alguns sítios arqueológicos da antiga Suméria apresentam uma camada muito espessa de argila de aluvião, semelhante à que depositada por inundações muito longas. A famosa obra de Werner Keller, “E a Bíblia Tinha Razão”, detalha bem o assunto. No fim das contas, o Dilúvio é um dos fatos mais confirmados da Bíblia. Há provas indiscutíveis de que houve uma grande inundação na Mesopotâmia antes da era patriarcal. Há centenas de tradições no Oriente Próximo, e em todo mundo, que contam a seu modo a história do Dilúvio. A grande dúvida entre os estudiosos das Escrituras hoje é saber qual foi à extensão dessa grande inundação? Será que atingiu toda a terra? Ou apenas uma grande inundação regional?


Vejamos as dificuldades para a hipótese de um dilúvio universal:

1. De onde veio e para onde foi tanta água? O volume de água para uma inundação mundial, de quase nove quilômetros de altura, seria oito vezes superior ao que temos no planeta. Isso destruiria todos os vegetais da terra. Além disso, como essa água desapareceu depois?

2. Poderiam os animais de outros continentes caber na arca e viajar até Noé? A arca tinha 135 metros de comprimento por 22,5 de largura e 13,5 de altura, com três andares. Além de ser difícil acomodar todos os animais do mundo, como os animais que vivem em outros continentes teriam se deslocado até lá?

3. A mistura entre mares e rios não mataria muitos peixes? Sabemos que peixe de água doce não vive em água salgada. Se as águas do planeta tivessem se misturado, os peixes dos rios teriam sido extintos.

4. Como armazenar alimento para tantos animais? Se já seria difícil acomodar os animais, como armazenar e alimentar tantos bichos por mais de um ano. Seria possível?

5. Por que Noé não foi anunciar a todos os povos o castigo de Deus? Se o Dilúvio atingiu todo o planeta, não seria razoável esperar que Noé tivesse viajado para avisar a todos os povos?


É por essa razão que muitos estudiosos acreditam que o Dilúvio foi regional, com significado universal. Apesar disso, eles também têm perguntas difíceis de derem respondidas:

1. Por que seria necessário construir uma arca, se os animais poderiam ter fugido para outro lugar? Se a inundação atingiu somente uma região, será que faria sentido construir uma arca enorme para preservá-los? Não seria mais simples fazê-los migrar? O que dizer das aves migratórias? Elas entraram na arca?

2. A própria Bíblia não afirma que o Dilúvio cobriu toda a terra? Ainda que se argumente que “debaixo do céu” refira-se a uma região, o texto de Gênesis 7.19-23 parece dar uma idéia de inundação global, e não regional.

3. Como acreditar que o Dilúvio foi parcial, se as águas cobriram os montes de Ararate? Seria possível que uma inundação cobrisse os altos montes do Ararate sem que a Europa e a África fossem inundadas?

4. Se Deus afirmou que o Dilúvio não se repetiria, como pode ter sido parcial? Parece não fazer sentido crer que uma inundação parcial não se repetiria. Ao longo dos anos, centenas de inundações têm assolado o planeta. Como a promessa de Deus pode ser cumprida, se o Dilúvio foi apenas uma inundação local?

5. Como toda a humanidade pode ser descendente de Noé? A Bíblia nos diz que a terra foi povoada a partir dos filhos de Noé (Gn 10.32). Se o Dilúvio foi apenas regional, como isso poderia ser possível?

Cada leitor deve avaliar as dificuldades das duas perspectivas e escolher sua posição. A verdade é que, ainda que o Dilúvio tenha sido parcial, seu significado foi universal. O Deus justo puniu a arrogância e maldade dos homens quando tais comportamentos atingiram limites máximos. A misericórdia divina preservou Noé e sua família, mantendo a esperança de redenção.

Nós temos uma mensagem de consolo: Nunca mais haverá outro dilúvio para destruir a terra (Gn 9.11). Nunca mais “as águas irão rolar”. Por outro lado, é importante ressaltar que Jesus confirmou a realidade do Dilúvio, e afirmou, de maneira incisiva, em Mateus 24.37-39: “Como foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do homem. Pois nos dias anteriores ao Dilúvio, o povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e eles nada perceberam, até que veio o Dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do homem”. As águas “já não vão rolar”, mas o julgamento divino vai chegar.

Esteja preparado!

Leia mais sobre o assunto: O Dilúvio foi universal ou parcial?


>> Revista Visão Bíblica

Por Luiz Sayão, Pastor, Teólogo, Hebraísta, Escritor e Tradutor da Bíblia. Professor da Faculdade Batista de São Paulo e do Seminário Servo de Cristo. Professor visitante do Gordon-Conwell Seminary, EUA.



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