| em 01 fevereiro 2011

Os Atos do Espírito Santo na vida da Igreja


1 - O título

O título Atos dos Apóstolos (gr. Prakseis Apostolon) não aparece no conteúdo da obra. Tertuliano chamava-o de “O memorando de Lucas” e o Cânon Muratoriano de “Os atos de todos os apóstolos”. Toda via, a designação do livro, como atualmente consta em nossas bíblias, não reflete o seu conteúdo. O título indica que os atos dos Doze Apóstolos do Cordeiro serão descritos, no entanto, apenas Pedro e Paulo são proeminentes. Pedro ocupa os doze primeiros capítulos, enquanto Paulo os capítulos 13 e 28. Menciona-se as atividades de Pedro (1.1-12.24), Estevão (6.1-7.60), Felipe (8.4-39) e Paulo (13.1-28.31). Nada se acrescenta aos atos dos demais apóstolos. Esta é uma das razões pelas quais o teólogo pentecostal Stanley Horton, considerando as ações do Espírito Santo no livro, designa-o como “Atos do Senhor Ressuscitado pelo Espírito Santo na Igreja e Através Dela”. Outros biblicistas sugeriram “Atos do Esppírito Santo” e “História do Poder do Espírito Santo entre os Apóstolos”.
Contudo, o professor deve entender que nos primeiros séculos da era cristã, o termo grego “atos” (prakseis), era usado tecnicamente para descrever os atos ou feitos heróicos de um povo. Assim, o título Prakseis Apostolon foi empregado para designar as atividades desenvolvidas pela Igreja através dos apóstolos, em vez de referir-se às atividades de todos os apóstolos.


2 – Autor

Lucas é o autor do livro de Atos. Ele é chamado de “médico amado” (Cl 4.14), “cooperador” (Fm 24) e indiretamente de “amigo” (2 Tm 4.11). Ele é o mais erudito dentre os quatro evangelistas. Enquanto Mateus e Marcos, por exemplo, lustram seus escritos com verve aramaica e semítica, o “médico amado” emprega um grego escorreito muito próximo do ático, mas que deve ser interpretado mais corretamente como o koinê literário. O prefácio das obras Lucas-Atos é um monumento literário cravado no coração dos Evangelhos, nada a deverem em estilo, exatidão e beleza aos imortais escritos helênicos. Por conseguinte, o Santo Evangelho de Lucas forma uma unidade com Atos dos Apóstolos. Vejamos:

a) Atos refere-se ao Evangelho de Lucas como “o primeiro tratado” (proron logon), At 1.1;
b) Atos foi endereçado ao mesmo gentio ilustre do terceiro Evangelho: “Teófilo” (At 1.1cf. Lc 1.1);
c) Atos continua a partir do ponto onde o Evangelho de Lucas encerrou (At 1.1-5cf. Lc 24.36-53);
d) Atos traz a humilde assinatura de Lucas no emprego do pronome “nós”: “procuramos”, “estivemos”, “saímos”, “assentamo-nos”, “falamos”, etc. (At 16.10-17; 20.15-21.18; 27.1-28.16);
e) Atos enfatiza a obra do Espírito Santo assim como o Evangelho de Lucas.


A autoria de Lucas nunca foi posta seriamente em dúvida. A obra alemã Sinopse dos Quatro Evangelhos, editada pelo erudito Kurt Alam, cita trechos do prólogo antimarcionita que diz: “Lucas é um sírio de Antioquia, médico por profissão, discípulo dos apóstolos e companheiro de Paulo até seu martírio. Serviu ao Senhor até o fim de seus dias, solteiro, sem filhos, faleceu aos 84 anos na Beócia, cheio do Espírito Santo”.²


3 – Ocasião do escrito

O Evangelho que fora apresentado a Teófilo com a narração dos eventos que antecederam e sucederam o nascimenti=o de Jesus, adornado por seus ensinos e milagres e dramatizado através da paixão de Cristo, chega ao clímax com a ressureição e ascensão do filho de Deus. Para manter a unidade entre os dois documentos, o prefácio do livro de Atos dos Apóstolos retoma a via literária que encerra o Evangelho. No prólogo de Atos, Lucas sintetiza os propósitos da primeira obra, reafirmando a metodologia empregada em Lucas-Atos (Lc 1.1-4; At 1.1-5), e retoma, após o prefácio, o tema que segue em Atos 1.6,12s. A perícope é quase um pós-escrito do primeiro Evangelho. O evangelista emprega estilisticamente no versículo 6 a conjunção subordinativa men para interpor um trecho (6-11) subordinado também à narrativa de Lucas 24.44-51. O anúncio da promessa (epangelia) e virtude (dynamis) do Espírito, sumariada em Lucas 24.49, é ampliado em Atos 1.4-11. O versículo 12, por meio do advérbio então (lote), insere também o parágrafo na mesma seqüência do epílogo do Evangelho.


4 – Características especiais

O livro de Atos dos Apóstolos é o primeiro documento cristão primitivo a descrever o surgimento e a expansão da igreja – do cumprimento da promessa do Espírito até a expansão do Evangelho em Roma – cobrindo um período de cerca de 40 anos. Esse fato já seria suficiente para outorgar a obra um lugar privilegiado entre os documentos historiográficos mais importantes de nosso mundo, no entanto, Atos se destaca em:

Vocabulário: É rico e vivaz, com cerca de oitocentas palavras não usadas por outros letrados do Novo Testamento. O biblicista Rinaldo Fabris afirma que 90% do vocabulário de Atos se encontra na Septuaginta; 85% em Plutarco e 65% no grego dos papiros.³

Edição e revisão: Registre-se o fato de o literato ter revisado, editado e adaptado os discursos e os fatos que se propôs a narrar. O cálamo do autor pulsa semelhante às impressões e ao impacto que a história exerce sobre ele. Lucas não se detém como os impressionistas, mas análogo aos realistas, evita o exagero, as minudências, as ocorrências dramaticamente irrelevantes a fim de não empobrecer o tônus da ação. A obra é intensa e densa: Os fatos desenvolvem-se com muita rapidez e as ações do Espírito, através dos apóstolos assinalam o ritmo e a freqüência com que novos ventos são acrescentados à narrativa. Todavia, a densidade da obra compacta os eventos assinalados e a vagareza com que se costuma ilustrar a história, cede espaço à força da linguagem e a síntese dos fatos.

Exatidão histórica: o historiógrafo pontua os primeiros quarenta anos do Cristianismo com os nomes e alguns fatos episódicos da história secular. Diferente dos outros três evangelistas, Lucas traça um breve paralelo com o governo de certos imperadores romanos: César Augusto (Lc 2.1), Tibério César (Lc 3.1), Cláudio César (At 11.28; 18.2), e Nero, o César de Atos 16.11,21. Há de se acrescentar em Lucas 1.5 o rei da Judéia, Herodes, o Grande, ainda em 2.2, Cirênio, governador da Síria. A exatidão histórica de Lucas impressiona os eruditos mais exigentes. F.F.Bruce a respeito da verve historiográfica de Lucas afirmou: “O escritor que dessa forma relaciona a própria narrativa com o contexto mais amplo da história secular se expõe a sérias dificuldades, se não é bastante cuidadoso; oferece ao leitor crítico tantas oportunidades para testar-lhe a exatidão. Lucas enfrenta esse risco e sai-se muito bem”.

Estilo literário: A obra de Atos dos Apóstolos mistura formas clássicas com o dinamismo do idioma Koinê, a língua popular. A linguagem que acompanha a elegância do estilo lucano reflete influências recebidas da septuaginta e da doutrina dos apóstolos. Lucas estrutura a narrativa de Atos empregando gêneros também presentes em seu Evangelho: relatos de milagres – onde apresenta a confirmação da ação e orientação divinas sobre os atos dos apóstolos – intinerário de viagens – descrição objetiva do deslocamento dos apóstolos no cumprimento de At 1.8 –; descrições dramáticas – relatos dos episódios e fatos dramáticos que cercaram a pregação do evangelho –; discursos querigmáticos – seções que tratam do anúncio da mensagem cristã –; sumários – sínteses padronizadas do avanço missionário –; repetições – como por exemplo, a conversão e vocação de Paulo (At 9.1-31; 22.1-21; 26.9-18). Uma característica singular de Atos é o díptico ou simetria histórica entre Pedro e Paulo. Veja a comparação abaixo.


Pedro

Primeiro sermão (2.14s)
Cura de um coxo (3.2s)
Simão, o mágico (18s)
A sombra de Pedro (5.15)
A imposição das mãos (8.17)
Pedro adorado (10.25)
Ressurreição de Tabita (9.40)
Prisão de Pedro (12.3, 2)


Paulo

Primeiro Sermão (13.16s)
Cura de um coxo (14.8s)
Elimas, o mágico (13.8s)
O lenço de Paulo (19.2)
A imposição de mãos (19.6)
Paulo adorado (14.11-13)
Ressurreição de Êutico (20.9, 10)
Prisão de Paulo (28.30)

Lucas organizou atividades apostólicas de tal forma que a relação entre os atos de Pedro e os atos de Paulo são postos paralelamente. Existe também uma relação simétrica entre os Evangelhos e Atos dos Apóstolos. Os evangelhos descrevem o Filho do Homem que se encarnou para morrer pelos pecadores. Já o livro de Atos, mostra a vinda do Filho de Deus no poder do Espírito Santo. Os Evangelhos apresentam o que Cristo começou a fazer e a ensinar. Atos dos Apóstolos descreve o que Jesus continuou fazendo através do Espírito Santo, por meio dos discípulos. Nos Evangelhos Jesus é apresentado como o Salvador crucificado e ressuscitado, mas em Atos Cristo é descrito como o Senhor Exaltado. Por fim, nos Evangelhos ouvimos os ensinos de Jesus, mas em Atos os efeitos dos ensinos de Jesus na vida dos apóstolos.


Estrutura

Atos dos Apóstlos oferece várias estruturas ao estudioso. Tudo depende da perspectiva do biblicista e ênfase que ele deseja destacar na obra. Como se trata de um livro cujo objetivo é descrever o cumprimento e desenvolvimento da missão cristã conforme o itinerário estabelecido em Atos 1.8, preferimos estruturar o livro de acordo com o sumário estabelecido pelo autor em 1.8:


A Expansão da Igreja em Atos (1.8)

1 – Expansão da Igreja em Jerusalém (6.7);
2 – Expansão da Igreja por toda Palestina (9.31);
3 – Expansão da Igreja até Antioquia (12.24);
4 – Expansão da Igreja até Ásia Menor e Galácia (16.5);
5 – Expansão da Igreja na Europa (19.20);
6 – Expansão da Igreja até Roma (25.31)


Por Esdras Costa Bentho, teólogo, pedagogo, chefe do setor de Bíblias da CPAD e autor das obras Hermenêutica Fácil e Descomplicada e A Família no Antigo Testamento: História e Sociologia. (www.teologiaegraca.blogspot.com)

Fonte: Revista Ensinador Cristão



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