| em 03 junho 2011

A arte de viver com saúde, comendo e jejuando com sabedoria

O presente texto é uma contribuição à reflexão sobre o jejum e comer na perspectiva da corporeidade. São analisados os termos comer e jejuar nos contextos bíblico e pastoral, desembocando em uma espiritualidade integradora que gera saúde corporal e espiritual.


Introdução

O livro do Eclesiastes deixou registrada a máxima: “Nada melhor para o ser humano que comer e beber, desfrutando do produto do seu trabalho” (Ecl 2,24). Na outra ponta da linha, o livro do Levítico apresenta o jejum como “decreto perpétuo” que visa afligir, humilhar a alma (Lv 16, 29-31). Corpos que se deleitam no prazer de comer e beber. Almas que se afligem na abstinência voluntária dos alimentos. Como compreender isto em perspectiva bíblica, cultural, religiosa e de saúde corporal? O que o significado destas atitudes? É o que veremos na reflexão que ora iniciamos. A pergunta que impulsiona a nossa empreitada é: O que isto tem a ver com a saúde?

1. Comer é...

Comer é um gesto sublime que todos nós precisamos exercitar a cada dia de nossas vidas, para que o sopro de vida seja perpetuado em nossos corpos. “Vem, vamos comer” é o sugestivo título do livro de Klaus Finkam sobre a arte de comer com saúde . Comer é comer, é saber comer. Caso contrário, seremos comidos pela comida. Comer é prazer. Prazer na saciedade, no descanso do corpo que nutre das vitaminas. O não comer como convém era praticado nos palácios romanos, onde havia o costume de comer exageradamente e em seguida provocar o vômito para comer novamente.

2. Comer na Bíblia

A Bíblia nos oferece vários elementos, vários contornos da comida e sua relação com o ser humano.

2.1 – No principio o ser humano era vegetariano

As páginas iniciais da Bíblia, no livro do Gênesis, nos diz que Deus, quando criou o ser humano lhe deu direito de alimentar-se das ervas e árvores que dão sementes e fruto (Gn 1, 29). Somente depois do dilúvio é que Deus permitiu ao ser humano alimentar-se de todo ser vivo que se move, isto é os animais e peixes (Gn 9, 3). Neste contexto, no entanto, Deus não permite comer o sangue do animal (Gn 9,4). Bom, mas isto é compreensível naquele contexto daquele da Escritura, onde se pensava que no sangue estava a vida, a alma. Comer o sangue significava comer o outro, a sua essência.

Neste mito da criação fica claro que o ser humano primeiramente era vegetariano. Somente após o seu modo equivocado em relação ao seu semelhante, o que provocou o Dilúvio, é que Deus permite comer carne. No entanto, Deus põe um freio à violência, quando não permite comer o sangue do animal. Simbolicamente o sangue é a vida do semelhante que dever ser preservada.

2.2 - Não coma os animais impuros...

O livro do Levito, no seu Código da Pureza, oferece uma lista de animais terrestres, aquáticos e aves que não devem ser comidos pelo ser humano, a saber: camelo, coelho, lebre, porco, peixes sem escamas, animais aquáticos que não têm barbatana, abutre, corvo, avestruz, gavião, mocho, garça, morcego, insetos alados de quatro pés, etc (Lv 11, 1-23). Os argumentos para proibir o uso destes animais como comida justificava-se pela constituição genética dos mesmos, como: não ter casco fendido, parido em duas unhas, ruminar, não ter barbatanas e escamas, pois são peixes limpadores, assim como as aves limpadoras.

Estes animais não eram considerados puros para o sacrifício e tão pouco para Deus. Claro que a tradição de comer carne de porco vai surgir na experiência do deserto, quando o povo percebia que esta carne mal conservada no ambiente de calor causada a doença e morte do povo. Proibir o seu uso como comida foi o modo encontrado para preservar a vida. Se a Bíblia fosse escrita em nossos dias, com o sistema moderno de higiênico de criar e conservar a carne de porco, Deus diria: “podereis comer carne de porco”.

A regra básica para proibir o comer animais impuros refletia a mentalidade da época em torno ao povo de Israel, escolhido para ser santo e puro para Deus. Um povo puro não deve comer coisas impuras.

2.3 – Comer muito gera...

Um dos pecados morais, a gula, é condenada na Bíblia. “Põe uma faca na tua garganta , se és glutão”, ensina a sabedoria recolhida no livro dos Provérbios 23, 2, sobretudo quando és jovens e vais comer com um chefe. A Teologia Moral da Igreja Católica, já no século 6 e depois com Santo Tomás de Aquino, no século 13, definiu a gula como “ busca incessante aos prazeres da comida e da bebida” e a colocou no rol dos sete pecado capitais.

Segunda a sabedoria bíblica comer muito causa:

1. Miséria: “Que ama o vinho e a boa carne jamais ficará rico” (Pr 21, 17). “Bebedor e glutão empobrecem” (Pr 23,21).

2. Exploração do pobre: “Eles estão deitados em leitos de marfim, estendidos em seus divãs, comem cordeiros do rebanho e novilho do curral... mas não se preocupam com a miséria da casa de José” (Am 6,4).

Neste dois exemplos o paradoxo da comida despropositada, uns comem muito e empobrecem, outros comem do bom e do melhor e nem se dão conta que muitos não têm o que comer para sobreviver. Em ambos os casos, Deus não está de acordo. Ele deu o alimento como dom para todos os seus filhos e filhas.

2.4 – A sabedoria consiste em comer com moderação

Saber comer é uma arte. Saber combinar os alimentos e comê-los como convém exige esforço e moderação. O provérbio bíblico ensina: “Encontraste mel? Come o suficiente, para que não fiques enjoado e vomites” (Pr 25, 16). Lapidar é o ensinamento de Sabedoria 37, 29-31: “Não sejas ávido de toda delícia, nem te precipites sobre iguarias, porque na alimentação demasiada está a doença e a intemperança provoca cólica. Muitos morreram por intemperança, mas aquele que se cuida prolonga a vida”. E o livro da Sabedoria não pára por aí. Outros conselhos são dados, quando fores convidado para um banquete (Sab 31, 12-24):

1. “Não abras demais a boca e não digas: que abundância”...

2. “Como um homem bem-educado, come o que te é apresentado e não sejas voraz”...

3. “Acaba primeiro por educação”...

Além destes conselhos, o texto afirma com sabedoria: “Sono saudável tem aquele de estômago moderado, levanta-se cedo e com boa disposição. Insônia, vômitos, cólicas são tributos do homem insaciável” (Sab 31,20).

O comer com moderação é a regra de uma boa saúde. Para que não sintamos insaciáveis ao comer, vale a regra da salivação antes e durante a comida. Mastigar bem os alimentos, formando um bolo alimentar na boca, já meio caminho andado para uma boa digestão e saúde. Comer nas horas certas, com apetite e lentamente são também boas normas de alimentação. Experimente deixar o garfo sobre a mesa, enquanto mastiga.

A moderação ao comer é um caminho certo para a saúde e vida tranqüila. Não deixe a comida te comer, coma-a com prazer e alegria e na relação saudável com os seus semelhantes.

Regimes que emagrecem rapidamente não resolvem nada. O segredo está numa reeducação alimentar. Chega de efeito sanfona no corpo. Isto causa somente frustração, ansiedade e quilos a mais.

Uma outra dica para comer com arte é saber o momento de parar de comer. Em um dia de festa e até mesmo em finais de semana, é claro que comemos um pouco mais, mas no dia seguinte vale a moderação ou diminuição do alimento.

3 - Jejuar é...

Jejuar é uma prática milenar nas religiões. Jejuar é ficar completamente ou parcialemente sem comer. A abstinência pode também estender ao beber e ter relações sexuais. Os muçulmanos, no mês dedicado ao jejum e à penitência, no Ramadam, exercitam esta prática religiosa nestes seus três níveis. Os judeus têm a tradição de fazer jejuns públicos de caráter penitencial e de memória dos eventos tristes ocorridos na história de Israel.

O substantivo hebraico para jejum é sum que equivale a ‘innah nefes, isto é, inclinar, humilhar a alma, ou melhor, auto-humilhação. A alma, no bom sentido do termo, significa a dignidade da pessoa, é tudo aquilo que me faz ser. Jejum é, pois, a aflição da alma que sacrifica si mesma a Deus e ao próximo, na simplicidade e no silêncio. O jejum devolve a dignidade a quem o pratica e a quem ele é oferecido: Deus ou o pobre . Se o ato de comer alimenta o corpo, o jejum, por sua vez alimenta a alma. O jejum nos coloca em estado de oração e purificação.

4 - Jejuar na Bíblia

Na Bíblia encontramos vários elementos da prática do jejum. Tanto o judaísmo como o cristianismo, posteriormente, incrementaram a prática do jejum. O movimento cristão monástico, por exemplo, o do ramo masculino, iniciado no Egito, no século IV da Era Comum, tinha como norma rígida a abstinência total da atividade sexual e a escassa comida, como prática de jejum. Vejamos como a Bíblia oferece bases para esta atitude.

4. 1 – Em tempos da provação o melhor remédio é o jejum

No tempo dos juízes, após o povo ter desviado-se do Senhor, Samuel não teve dúvidas em convocar um jejum. E eles mesmos exclamaram: “Pecamos contra o Senhor” (1Sm 7, 6). Nesta mesma linha, o profeta Joel ordena o jejum em tempos de provação por causa do pecado do povo (Jl 1,14; 2,15).

A morte de alguém, considerado um tempo de provação na fé e de tristeza pela morte do irmão, era marcado pelo jejum. Após a morte de Saul, o povo jejuou durante 7 dias (1Sm 31,13). Davi também jejuou por Saul e seu filho Jônatas, e amigo de Davi (2 Sm 1, 12). Jejuar por alguém que faleceu tinha a conotação de colocar-se no seu lugar, afligir a alma pelo espírito do falecido .

Após uma catástrofe nacional, o jejum era observado como memória do evento. Assim atesta do livro de Zacarias, no capítulo 7.

4.2 – O jejum que agrada a Deus é prática da justiça

A escola do profeta Isaías deixou registrado um texto basilar para a compreensão do jejum como prática da justiça. Dirigindo-se ao povo, ele diz: “E perguntam: ‘Por que temos jejuado e tu não o vês? Temos mortificado as nossas almas e tu não tomas conhecimento disso?’ A razão está em que, no dia mesmo do vosso jejum, correis atrás dos negócios e explorais os vossos trabalhadores; a razão está em que jejuais para entregar-se a contendas e rixas, para ferirdes o punho perverso.

Não continueis a jejuar como agora, se quereis que a vossa voz seja ouvida nas alturas! Por acaso é este o jejum que escolhi, um dia em que o ser humano mortifique a sua alma? Por acaso a esse inclinar a cabeça como um junco, a esse fazer a cama sobre pano de saco e cinza, acaso é a isso que chamas jejum e dia agradável a Deus? Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniqüidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo?

Não consiste em repartir o pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aqueles que vês nu e em não te esconderes daquele que é tua carne?”. Não necessita muitos comentários para compreender a mensagem do profeta, quem conclama o povo a fazer jejum e agir com justiça. Isto agrada a Deus.

4.3 – Jejum como purificação, imploração da misericórdia divina e discernimento

O Código da Santidade previa o jejum para o Dia das Expiações (Lv 23, 26-32). Que cumprisse o preceito do jejum naquele dia seria eliminado do meio do povo.

O profeta Jeremias lembra a importância do jejum, ao implorar a misericórdia de Deus (Jr 36, 6.9). A cidade de Nínive, após a pregação de Jonas, coloca-se em condição de penitente, fazendo jejum e implorando a misericórdia de Deus.

Entre os primeiros cristãos, a prática do jejum foi acolhida para também ajudá-los a escolher as lideranças que teriam cargo de direção e ministério apostólico na comunidade e na pregação missionária. Assim foi o caso no momento da escolha de Saulo e Barnabé (At 13,2-3).

4.4 – Como jejuar com sabedoria?

A Bíblia chega a mencionar que a prática do jejum consistia em um dia, dois dias por semana e até sete dias consecutivos. Como jejuar? Quais os meios utilizados? O sentido do jejum continua atual? E que veremos a seguir.

Jejuar é desintoxicar, é purificar-se. Saber jejuar é também uma arte. Neste sentido, nos últimos anos tenho participado e ministrado, juntamente com uma equipe de especialistas em leitura corporal, um “Retiro bíblico corporal de purificação”. No período de uma semana, cada participante tem a oportunidade de:

• Alimentar-se de forma restrita e balanceada;

• Fazer um jejum de carne, café, açúcar, bebidas e cigarro;

• Repensar os hábitos alimentares;

• Deixar de fumar, caso seja fumante;

• Purificar o corpo e sentimentos;

• Refazer o caminho espiritual de um personagem bíblico;

• Vivenciar a experiência do perdão;

• Participar de dinâmicas corporais de integração pessoal e coletiva;

• Fazer experiência de silêncio e leitura individual;

• Realizar ou aprender a praticar a Yoga;

• Usar bolsa de água quente a cada sobre os rins;

• Receber uma sessão individual de massagem oriental Shiatsu;

• Fazer ginástica aeróbica a cada manhã;

• Tomar banho de ar;

• Tomar chá e sal de purificação;

• Participar de palestras sobre leitura corporal, desintoxicação e reeducação alimentar.

Esta experiência de oração que integra reflexão bíblica, exercícios corporais de relaxamento, alimentação restrita e balanceada tem sido muito interessante .

O nosso organismo jejua todas as noites. Necessitamos dele para manter a harmonia do corpo. Não precisamos de muito alimento para sobreviver. O que ocorre é que durante a vida, aprendemos a alimentar mal. Comemos muitos acreditando que é preciso comer sempre, ter três refeições diárias e sólidas.

Quando tomamos consciência da reeducação alimentar, iniciamos um certo jejum, pois jejum não é passar fome, mas autodisciplina alimentar .

O jejum nos traz benefícios importantes, tais como:

- afirmação do autocontrole;

- ativação do paladar;

- remoção das toxinas;

- reeducação alimentar;

- cura da insônia;

- perda de peso;

- cura de doenças através da energia poupada com a digestão diária;

- ativação da capacidade perceptiva;

- vigor, energia e satisfação;

- saúde sexual;

- renovação do organismo;

- reduz a dependência do cigarro, álcool;

- nos leva à oração;

- baixa a pressão e os níveis do colesterol.

Durante o jejum é muito importante tomar 2 litros de água por dia. O mal-estar sentido durante o jejum é normal. Significa que o corpo está liberando toxinas. Nos primeiros dias do jejum é normal a diminuição da percepção. Durante o jejum é importante o banho para purificação, mas não aconselháveis banhos quentes e saunas.

O banho de ar durante o jejum propicia limpeza da pele e coloração do sangue. A mastigação dos alimentos é muito importante para digestão dos alimentos. Ela começa pela boca. Em jejuns com dieta balanceada, como o proposto acima, pode se fazer a experiência da escola de mastigação. No final do retiro é bom comer frutas e nunca voltar a comer abruptamente. O corpo precisa retomar lentamente o seu ritmo.

5 – Conclusão: jejuar e comer fazem parte de uma nova espiritualidade corpórea

Será que ainda vale a pena o jejum como humilhação do corpo, que o penaliza e sacraliza a alma? Uma vida de penitência não poderia ser um gesto de orgulho? O jejum só tem valor se ele liberta o corpo, purificando-o para também libertá-lo, ou melhor, salvá-lo, numa linguagem religiosa. O jejum cura a ambos.

O jejum salva corpo e alma, se é que podemos ainda insistir nesta dicotomia. Somente nesta perspectiva é que vale a pena retomar o jejum bíblico como caminho de espiritualidade. As dietas, em a devida orientação médica, e os remédios para emagrecer largamente divulgados na mídia podem acarretar malefícios para a nossa saúde.

A reflexão sobre a corporeidade nos ajuda a resgatar o sagrado valor do corpo, tão massacrado ao longo da história em favor de uma espiritualidade que valoriza a alma. Uma nova espiritualidade está brotando desta intuição. Espiritualidade que integra masculino e feminino, corpos sociais que interagem na busca da justiça social, que inclui corpos negros e indígenas e tantos outros discriminados. Comer e jejuar fazem parte de numa nova espiritualidade corpórea que integra corpos, céu e terra, ecologia e ser humano....

O ato de comer é importante. Ninguém vive sem comer. Mas também ninguém vive para comer. Não é necessário privar o corpo de comer, o desafio está em aprender a comer com sabedoria, para viver com saúde e não deixar o corpo adoecer e morrer. Isto é também uma questão de corporeidade! Isto é arte! Isto é sabedoria! Arte de viver com saúde, comendo e jejuando com sabedoria...


por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM
(Publicado na revista RIBLA, 49, 2004)

Fonte: http://www.bibliaeapocrifos.com.br/



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