| em 30 julho 2011

Modelo de Família – Longe da perfeição

Como o professor de Escola Dominical deve lidar com alunos em situações de desestrutura familiar

Infelizmente, temos visto em nossos dias uma enxurrada de problemas envolvendo famílias. No entanto, isso não é privilégio da nossa geração. Ao analisarmos as Escrituras, encontramos, em diversas situações, famílias que enfrentaram todos os tipos de problemas e que fogem totalmente à regra de perfeição.

Mesmo que alguns digam que a desagregação familiar é algo dos nossos dias, temos exemplos bíblicos de que a investida de Satanás sobre a família vem desde o princípio. Por inveja, Caim matou Abel e José foi vendido pelos irmãos; Ester e a menina casa de Naamã eram órfãs; Tamar foi abusada pelo meio-irmão Amnom, o que, algum tempo depois, provocou a ira de Absalão, que o matou. Esses são só alguns dos exemplos de conflitos e problemas familiares que a Bíblia relata.

E hoje em dia não tem sido diferente. Infelizmente, as famílias em nossas igrejas e sociedade em nada lembram aquelas dos comerciais de margarina. São mães solteiras, mulheres divorciadas, homens abandonados pelas esposas, filhos de pais separados, filhos de pais viciados, crianças e jovens órfãos que todos os dias precisam esquecer as aflições da vida e buscar em Jesus Cristo a solução para seus conflitos.

Mas como o professor de Escola Dominical pode trabalhar essas questões e envolver essas pessoas no plano de salvação e de vitória que Deus tem para todos nós? Mesmo que algumas pessoas tentem fechar os olhos para essa realidade, as nossas igrejas estão repletas de situações como essa.

A educadora Telma Bueno lembra que é preciso compreender que não existe família prefeita. Segundo ela, os traumas e conflitos podem ser superados com o diálogo, a oração e a Palavra de Deus, e o desejo de perdoar. “Família perfeita é um mito. Todavia, embora não sejamos perfeitos, Deus nos ama, e estabeleceu princípios para que tenhamos, em família, relacionamentos saudáveis”, explica a pedagoga, orientando aos professores de ED que realizem debates com os alunos e tratem o assunto de maneira clara à luz da Palavra de Deus.

Pastor Elinaldo Renovato, líder da Assembléia de Deus em Parnamirin (RN) e terapeuta de família, atesta que a situação é bastante complexa e precisa ser tratada com cuidado e habilidade. Segundo ele, a primeira questão a ser observada é faixa etária dos alunos. “Na classe de crianças, é preciso que o professor coloque a situação de maneira positiva, deixando, porém, que elas manifestem suas opiniões e citando exemplos de casos que não se encaixam naquilo que chamamos de família comum. A partir desse exemplo, o professor vai tratar do assunto sob ótica da própria lição da Escola Dominical e da Palavra de Deus, mostrando por que isso acontece”, enfatiza.

Para a psicóloga Sonia Pires, esta é uma realidade que a igreja não pode ignorar. “Temos à nossa volta pessoas que enfrentam todos os tipos de problemas e estão carentes de apoio, atenção, e até mesmo um abraço. E muitas vezes nós não vemos; isso não é percebido”, coloca a especialista, reiterando que, “nas classes de ED, é preciso focar a família ideal, harmoniosa, mas também mostrar para essa criança, que está fora dessa realidade, que ela pode viver essa experiência com Deus”.

Vítimas das circunstâncias

Mãe solteira de uma menina de 7 anos, Cecília Maia vivenciou algumas situações constrangedoras na igreja que congregava. “Quando cheguei à classe da Escola Dominical com minha filha, percebi certo constrangimento por parte das professoras. Acho que elas não estavam preparadas para lidar com a situação e acabaram superprotegendo minha filha. Ela era colocada como uma criança diferente no meio das outras”, conta ela.

Na classe das mulheres, a situação não foi diferente. Cecília conta que muitas vezes era vista como uma pessoa totalmente imoral e que não poderia estar ali no meio das mulheres consideradas “normais’. “À vezes, tinha a impressão de que as pessoas me ignoravam. Era como se eu não estivesse na classe. E quando o assunto de aula era voltado para o casamento ou família, a situação ficava ainda mais delicada. Já ouvi muitas indiretas na igreja. Com o tempo. Fui me afastando e passei a congregar em outro local, onde as pessoas não conheciam minha história”.

Analisando a situação, pastor Elinaldo é categórico ao afirmar que, infelizmente, o preconceito existe dentro das igrejas e no meio do povo de Deus. “É terrível dizer isso, mas o bullying, que vem sendo tão falado ultimamente, existe em nosso meio. Não com violência, mas com preconceitos e discriminação. Temos nas igrejas pessoas que são rejeitadas por questões físicas e sociais, entre outras”.

A psicóloga Sonia Pires complementa dizendo que, quando o preconceito chega às classes de Escola Dominical, ele já está bem instalado na mente do aluno. Esse processo, normalmente, começa em casa. “O preconceito nunca é bem-vindo para o crescimento de ninguém. Você pode até não gostar, não concordar, mas precisa entender a situação e trabalhar de forma a eliminar esse preconceito. Isso deve ser trabalhado com o grupo; precisa ser debatido e questionado. É preciso compreender a situação. E cabe a professor orientar nesse processo”, destaca Sonia.

Telma Bueno enfatiza que só o fato de haver preconceito, já é um erro. “Esse é um tema que precisa ser trabalhado, tendo como foco o ensino de Jesus, que era inclusivo. Logo, não podemos dar espaço para o preconceito em nossas igrejas. Nossos alunos precisam saber que não podemos criticar ou desprezar uma família, caso ela não siga o modelo ideal. Quem somos nós para julgar alguém?”, questiona.

Débora Pimentel também teve alguns problemas, mas o motivo era outro. Filha de pai não evangélico, sempre ficava triste nas comemorações do Dia dos Pais das quais ele não participava. “Eu procurava nem ir à igreja nesta data. Pois além da ED, o culto de encerramento da Escola era todo voltado para essa data comemorativa. O pastor ainda pedia que cada filho fosse ao encontro do pai e fazia uma oração. Sem contar com o culto à noite, com distribuição de lembrancinhas. E sempre foi muito chato ver todas as minhas amigas com seus pais e eu lá sentada no banco querendo que aquele culto acabasse logo. A impressão era que todos estavam olhando com piedade, como se eu não tivesse pai”, lamenta Débora.

A adolescente Letícia Ferreira nunca conheceu o pai. Nas comemorações na igreja que envolvia o tema família, sempre focava no avô e tios. De acordo com sua mãe, ela desde cedo sempre soube que o pai havia ido embora e nunca quis conhecê-la. No entanto, por estar sempre envolvida nas atividades da casa de Deus, em especial na ED, não tinha como deixar de participar. “Apesar de não ter a presença do pai, sempre incentivei para que minha filha nunca deixasse de participar. Sei que ela fica triste, mas sempre está ativa na igreja”, afirma.

De acordo com o pastor Elinaldo Renovato, os educadores precisam ter esta percepção e não permitir que nenhuma criança fique fora de homenagens ou qualquer outra atividade realizada na classe. Segundo ele, a igreja precisa ser inclusiva e não excludente. “Nestes casos, o professor não pode deixar essa criança fora da programação. Se ela perdeu ou não convive com o pai, o professor precisa mostrar que Deus colocou uma outra pessoa para fazer o papel desse pai; no caso, o pastor, o avô ou um tio. A criança precisa ser incluída na programação de alguma maneira”, destaca.

Aline Aguiar não conviveu com o pai e perdeu a mai aos 15 anos. Morando com uma tia, ela diz que quando chegou à igreja sempre procurou se envolver diretamente nas atividades da Escola Dominical para superar qualquer tipo de tristeza. Ela lembra que os momentos mais difíceis eram na época das datas comemorativas como o Dia dos Pais, Dia das Mães e Natal. “Eu coloquei em meu coração que não poderia ficar triste porque eu ajudava na classe das crianças de 6 a 8 anos. Precisava mostrar para elas bastante ânimo e alegria com as comemorações. Apesar da tristeza, nos momentos mais difíceis, podemos contar com o consolador”.

O papel da igreja

Como já pudemos ver, nem mesmo nas igrejas o modelo de famíia ideal é a maioria. Pelo contrário. Se a Casa de Deus é o lugar para curar os feridos, essas pessoas estão no lugar certo, em busca de consolo e conforto para as suas vidas.

De acordo com o pastor Elinaldo, situações desse tipo são muito comuns em nossas igrejas. O líder afirma que, no entanto, só estamos preparados para lidar com pessoas “normais”. “A igreja não está pronta para trabalhar com situações anormais, com famílias que estão desestruturadas. Como trabalhar isso na Escola Dominical? Podemos tocar em feridas muito profundas. Eu acredito que seria muito útil que a igreja promovesse um seminário para professores de ED com um psicólogo evangélico e um especialista, e fizesse esse tipo de abordagem: ensino da ED voltado para famílias em situação de desajuste”, explica pastor Elinaldo.

Segundo a educadora Telma Bueno, os professores de ED não podem simplesmente passar por cima dessas questões. “É preciso que os educadores estejam preparados e saibam abordar as questões do nosso dia a dia. O ensino da ED tem que ter aplicabilidade. Não adianta falar de personagens bíblicos e temas teológicos em aplicá-los à nossa realidade”, destaca.

Para a psicóloga Sonia Pires, lidar com o diferente é uma oportunidade de crescimento para todas as pessoas envolvidas. Segundo ela, como se tem o projeto de inclusão nas escolas seculares, com crianças com algum tipo de necessidade especial, isso também deve ser trabalhado nas igrejas com aqueles casos em que as pessoas vivem em situações diferentes da realidade que se espera. “É preciso saber lidar com as diferenças, não fazer discriminação e ter estratégias para trabalhar com essas situações. Se estamos em classe de ED e a idéia é crescer no conhecimento da Palavra, precisamos desenvolver também no nosso comportamento. E o papel do professor é fundamental. Ele precisa estar preparado. Apenas dizer que minha classe inclui pessoas diferentes, não faz sentido. Todo o preparo e trabalho desenvolvidos é que vão fazer a diferença no resultado final”, conclui a especialista.


por Sandra Freitas

Fonte: Revista Ensinador Cristão – Ano 12 – Nº 47
www.cpad.com.br



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