| em 24 março 2012

Examinando as Escrituras Sagradas

A importância de uma leitura correta para um maior aprofundamento no estudo da Bíblia

Assim como é certo que o mau uso da Bíblia é um perigo que ronda tantos quantos não se dedicam a um estudo cuidadoso das Sagradas Letras, outro grande mal é não lê-la adequadamente, com reverência e atenção.


Há na Palavra de Deus uma passagem que mostra a importância de se observar estratégias de leitura adequadas para a perfeita compreensão textual. É aquela de Neemias 8, que narra o episódio sobre o povo de Israel, mais especificamente “homens, mulheres e todos os que eram capazes de entender o que ouviam” (v2)*. Postados na praça em pé, desce a alva até o meio-dia, eles tinham os ouvidos atentos à leitura do livro da Lei, que era feita por Esdras, sacerdote e escriba, e um grupo de competentes auxiliares, “claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia” (v8).

Hoje as estatísticas voltadas para educação mundial mostram o Brasil com um percentual de desempenho decepcionante em leitura, com grande parcela de brasileiros considerados incapazes de ler e interpretar satisfatoriamente o texto mais simples. Entre eles, nós, cristãos brasileiros, estamos inclusos.


A LEITURA E O USO DA BÍBLIA
Como já é sabido, o uso indevido da Bíblia não consiste apenas em ignorar o que ela diz sobre determinado assunto, tomar um versículo fora do contexto ou ainda ler uma passagem e torcê-la convenientemente. Sim, do mesmo modo que não é correto, hermeuticamente falando, usar o texto bíblico para tentar levar Deus a fazer o que se quer ao invés daquilo que Ele quer que seja feito, igualmente é pernicioso ler o Texto dos textos de qualquer maneira, ignorando pontos, vírgulas e outros mecanismos que servem de instrumentos para permitir que essa leitura se torne harmoniosos e elegantes.

Efetivamente, pela linguagem nos expressamos nos revelamos, nos relacionamos com o outro e com o mundo. Somos humanos pela linguagem. Através da linguagem levamos Jesus aos perdidos, testemunhamos do amor de Deus, glorificamos ao Senhor. Mas não devemos esquecer que a leitura, junto com a escritura, é parte relevante desse universo formado pela linguagem. É do exercício da linguagem que Paulo fala em 1Coríntios 14.6ss, mas é à leitura que se refere no versículo 9, para complementar que conquanto a linguagem (v10) tenha modalidades variadas, pode ser entendida, desde que se procure a maneira certa de desenvolve-la.

A leitura é um processo. Nela, texto e leitor integram ativamente. É um ato social em que leitor e autor participam de um jogo interativo, mas a leitura vai muito além das palavras. Ler não se prende apenas à decodificação dos signos gráficos, primeiro requisito, mas na depreensão de tudo aquilo que o autor colocou e sinuou, isto é, deixou transparecer no texto. É aqui que entra a habilidade do leitor em examinar, observar, pesquisar, meditar, raciocinar, refletir, considerar, edificar-se ou, como diz a Bíblia, “conferir coisas espirituais com espirituais”, 1Co 2.13, explorando todas as possibilidades do texto que lê.

ESTRATÉGIAS DE LEITURA
Como afirma Paulo em 1Coríntios 14, as muitas formas de linguagem existentes no mundo só poderão cumprir seu papel informativo se entendidas eficientemente pelos respectivos destinatários, e isto só pode acontecer se o emissor usar, na transmissão da mensagem, a estratégia certa, o que significa dizer que diferentes modalidades de linguagem equivalem a diferentes modalidades de leitura. Daí a leitura informativa, feita nos jornais; a leitura recreativa, que fazemos quando lemos histórias em quadrinhos, revistas e romances; e a leitura para compreensão e retenção de informações culturais, a partir de livros didáticos e científicos. Nesta última categoria, dois níveis devem ser levados em conta:

1) Leitura inspecional ou pré-leitura - esta etapa caracteriza-se pela forma rápida em que se lida com o texto, salteando partes para tomar conhecimento geral do seu conteúdo, passando os olhos sobre títulos, subtítulos, fixando-os em alguns parágrafos. É a que praticamos lendo manchetes de jornais, anúncios e quadros de avisos ou nas livrarias. Própria para momentos de pressa. Noutro local e ocasião, uma leitura apressada, feita sem plena atenção e segurança, pode ocasionar, nos ouvintes, bloqueio à comunicação, desvios na compreensão e conclusões não pertinentes, além de denunciar no leitor falta de hábito de leitura e de familiaridade com os livros.

2) Leitura analítica - neste processo, a leitura se reveste de peculiaridades distintas da anterior. Esta é a fase da leitura efetiva, atenta, reflexiva, pausada, com possíveis releituras em que o leitor não apenas recebe um significado global para o texto, mas procura pistas formais, antecipa essa s pistas, formula e reformula hipóteses, aceita ou rejeita conclusões. Aqui, o leitor procura apreender e refletir sobre a mensagem do texto, sua coerência informativa, sua pertinência e relevância. Em se tratando de um texto bíblico ou outro a ele relacionado, o leitor, com a ajuda do Espírito Santo, vai descobrir os pensamentos de Deus, verdades e tesouros escondidos, imperceptíveis a uma leitura superficial e desatenta.

Cooperando com o Espírito da Verdade, devemos observar, ao mesmo tempo, nesta atividade, algumas estratégias para lograrmos êxito: as relações textuais.

As relações textuais envolvem toda a organização do texto. Um exemplo simples é examinar um capítulo de um livro da Bíblia com seu título principal e subdivisões (se houver), a estruturação dos parágrafos, as ralações de coesão e coerência, enfim, o conteúdo lógico e semântico do texto em questão.

Geralmente, pouca atenção se dá ao título do capítulo com as subsequentes divisões. Entretanto, são indicadores importantes, muitas vezes a chave da compreensão do conteúdo textual, porque sintetizam o tema ou objetivo do assunto tratado nesse capítulo.

Também devem se destacar as palavras-chaves que traduzem nas ideias fundamentais, bem como os termos relacionais, geralmente conjunções, tais como “porque”, “em verdade”, “portanto”, “pois”, que construam a tessitura textual e revelam a intencionalidade do autor, aclaram, explicam e definem o encadeamento lógico das ideias.


DIVISÃO BÍBLICA
Louvamos a Deus pela divisão da nossa Bíblia em capítulos e versículos. Assim fica mais fácil encontrar certos trechos ou memorizar, às vezes, até passagens inteiras do livro Santo. Mas nem sempre essas divisões estão no lugar em que deveriam, por não coincidirem com os parágrafos nos originais do texto, nos quais não havia qualquer divisão. Significa dizer que, por consequência, nem sempre o contexto se estende aos limites dos capítulos e, por extensão, o encadeamento de uma argumentação se esgota com o fim de um capítulo.

O parágrafo facilita a elaboração textual, pois ao mesmo tempo em que isola, também ajusta adequadamente as ideias principais desse texto, vindo a constituir a unidade de pensamento do autor no original. Mas é da maneira como o assunto é dividido, que depende, em grande parte, a dimensão do parágrafo, o que equivale dizer: quanto mais complexas forem as ideias desenvolvidas, mais parágrafos conterão esse texto. Das Bíblias que usamos a versão de Almeida Revista e Corrigida (ARC) não contem nenhuma indicação de parágrafo conforme os originais, o que se pode observar, porém, na de Almeida Revista e Atualizada (ARA), em que cada parágrafo de um capítulo é sinalizado pela inicial maiúscula em negrito. Já percebeu como no Salmo 46 o primeiro parágrafo vai do versículo primeiro ao terceiro? Sabendo disso, muita atenção deve ser dada à leitura da Bíblia, quer em particular quanto em público, para não dividir indevidamente uma passagem e com isso modificar a intenção do autor principal, alterando o teor da mensagem.


PONTUAÇÃO E DIVISÃO VERSICULAR
E como uma coisa puxa outra, essa questão está intimamente ligada à pontuação, que na palavra de Deus nem sempre coincide com a divisão versicular. Veja um exemplo dessa ocorrência de divisão defeituosa em Gálatas 1.15-16, em que a vírgula determina o fim de um versículo e início de outro. É ler e perceber.

Pontos e vírgulas são ferramentas auxiliares para a compreensão da mensagem. Não apenas indicam pausas maiores ou menores no discurso, mas também mudanças de pensamento e sentimentos e anunciam conclusões. São como os sinais de trânsito: se não respeitados, ocorrem desastres. Quando se lê o primeiro parágrafo do Salmo 121 sem a devida atenção, atropelando a pontuação, dá-se uma entoação diferente do que a interrogação no final do versículo primeiro sugere e passa-se a afirmar o que o texto não diz.

Hoje, quando proliferam tantos ensinos falsos, heresias de toda ordem e seitas das mais diversas, somente a Palavra de Deus, a espada do Espírito, tem poder e é o antídoto para combater eficientemente o mal. Portanto, devemos ser atentos e cuidados ao manusearmos as Sagradas Escrituras (2Tm 2.15)

*A autora usa a versão Almeida Revista e Atualizada

Maria Lúcia Fonseca é professora de Língua Portuguesa, Hermenêutica e Exegese Bíblica no Seminário Teológico da AD em Belém e no Instituto Bíblico da AD em Marituba (PA).

Referências: Revista Ensinador Cristão - Ano 6 - Nº 24 - CPAD



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